O primeiro é o Conto do Rola-Pança e o segundo é o Inesperado. Divirta-se!
OBSERVAÇÃO: Há probleminhas de configuração - conflito entre o blog e o Texto importado do word que gera seleção de partes do texto, aleatoriamente e alguns caracteres perdidos que na janela de postagem ficam invisíveis-, mas nada que impeça a leitura :) para quem é aventureiro.
***
ROLA-PANÇA
Imagine o futuro. Mas, imagine o futuro como o passado. Ou melhor; imagine um futuro no qual a tecnologia moderna foi abandonada por ter se tornado tão perigosa a ponto de quase ter destruído a humanidade. Para sobreviver, os remanescentes resolveram viver uma vida mais simples, inspirados na antiga era medieval.
Imagine o futuro. Mas, imagine o futuro como o passado. Ou melhor; imagine um futuro no qual a tecnologia moderna foi abandonada por ter se tornado tão perigosa a ponto de quase ter destruído a humanidade. Para sobreviver, os remanescentes resolveram viver uma vida mais simples, inspirados na antiga era medieval.
Para que as
desavenças do passado não fossem herdadas pelas novas gerações, toda a história
da humanidade, até então, deveria ser esquecida. E assim foi.
O passado foi
enterrado, juntamente com os vestígios da era tecnológica e uma nova era
medieval floresceu. As lâmpadas foram substituídas velas. Os telefones por
cartas, os carros por cavalos e os aviões por navios. Não demorou, os piratas
começaram a surgir.
Neste futuro,
neo-medieval, um garoto foi levado até as raras relíquias do passado esquecido,
que nada mais eram do que livros e filmes, preservadas por aqueles que
conheciam a verdade oculta. Havia um aparelho que se alimentava de energia do
sol e, através dele, o tal garoto pôde se deslumbrar com muitas aventuras. E,
por acreditar que todas elas realmente aconteceram e que todos aqueles
personagens realizaram todos aqueles feitos maravilhosos, ele acreditou que era
possível realizar qualquer coisa, se houvesse bastante determinação. E nele
havia muita. Assim, inspirado em heróis do velho tempo, ele cresceu, se
tornando o pirata Ônix Pedra Negra, para viver a própria aventura...
***
Capítulo I - No chão
Rola-Pança voltava
para a casa pensando em seu antigo capitão. O vento frio subia pela rua
estreita, enquanto o imenso homem descia. Passava a mão sobre os enormes
bigodes castanho-claros, quase num tom de laranja.
O ano era 524 do Novo
tempo.
Quando Rola-Pança
chegou em casa e colocou a mão na porta, soube, de imediato, ter alguém lá
dentro. Alguém não convidado. Uma ameaça. Ficou aliviado por sua amada estar
com as crianças numa feira anual, com o avô em outro reino.
O imenso homem entrou, tirou o chapéu e
acendeu um charuto. Só fumava quando passava alguns dias sozinho, uma vez por
ano, para se lembrar dos velhos tempos. Ainda era madrugada e apenas uma
lamparina iluminava o local.
– Venha. Sente-se à
luz – ele falou, bastante calmo.
– Tenho algumas
perguntas – uma voz feminina falou, resoluta.
– Certamente –
comentou Pança. Não tentou enxergar a mulher nas sombras. Não queria demonstrar
qualquer sinal de medo. Sentou-se numa imensa poltrona. Chupou algum tanto de
fumaça e o soprou ao ar.
– Preciso saber onde
está o pirata Ônix-Pedra Negra, outrora seu capitão – disse a voz vinda das
sombras.
– Raros são aqueles
que possuem esta informação nos dias de hoje – Rola Pança falou, após outra
baforada de fumaça.
– Você a possui?
– Me referia ao fato
de eu ter sido um marujo de Pedra-Negra – Rola-Pança riu. – Quanto à
localização de meu antigo capitão, não hesitarei em revelar que ele está, neste
momento, na Taverna do Coelho Caolho.
– Ah! Ônix
Pedra-Negra não tem a lealdade de seus antigos parceiros de crime, não é mesmo?
– a voz provocou. – Já matei muitos homens em minha jornada e é bem possível
que Pedra-Negra seja só mais um a morrer.
– Moça. Ônix
Pedra-Negra pode ser qualquer coisa, menos “só mais um” – Pança riu. – Sobre
lealdade, não posso pelos outros. Quanto a mim, sou um dos mais leais e, ao lhe
informar a localização Ônix, acredito estar colaborando com ele. Não acredito
mais em coincidências. A acabo de encontrar, não faz nem uma hora, meu antigo
capitão e, ao chegar em casa, encontro alguém que quer encontrá-lo. E, tenho de
confessar, pelo que vi da situação dele, você precisa encontrá-lo tanto quanto
ele precisa ser encontrado.
– Sabe quem sou?
– Uma ferramenta da
vida – Rola-Pança falou.
– Dada sua
colaboração, não me custa perguntar: há algo sobre o Pirata Ônix Pedra-Negra
que eu deva saber antes de encontrá-lo?
– O que eu teria a
contar sobre o pirata Ônix Pedra-Negra? Nada – Rola pança falou. – Mas posso
lhe contar sobre mim e o que aprendi com ele. Tudo o que eu disser sobre Ônix
Pedra-Negra é, na verdade, sobre mim... sobre como eu o via... e vejo, já que,
para mim, ele será um eterno amigo. Noutras palavras, o que tenho a dizer sobre
ele é o que ele fez por mim.
***
Gostaria de começar, jurando de pé junto, ter sido Ônix
Pedra-negra quem me deu o nome de Rola-Pança. Em geral é ele quem escolhe o
nome de guerra de seus marujos. Mas, no meu caso, não é verdade. Não foi ele
quem me deu este nome. Foi ele, no entanto, quem me fez ter orgulho de ser
chamado assim.
Antes de conhecer o pirata Ônix Pedra-Negra, eu era um
ninguém, não importava o nome pelo qual fosse chamado. E, talvez por saber que
ele poderia me ajudar, o odiei no primeiro instante em que coloquei os olhos
nele. É algo da alma; ele me explicou depois. Nossa alma sente o que uma pessoa
significará para nós, se dermos chances disso acontecer. Senti, na alma, o
quanto que ele poderia mudar minha vida. Mas eu não queria mudar, tenho de
confessar. Era mais fácil deixar a imundice continuar me cobrindo, enquanto
permanecia caído no chão de uma taverna suja, culpando o mundo por nunca ter me
dado uma chance.
Quando Ônix Pedra-Negra entrou naquela taverna, era o ano
521 deste Novo Tempo. Três anos atrás. Não sabia quem ele era e nem teria me
dado ao trabalho de perguntar, se ele não tivesse me chutado, enquanto passava
por mim, que, admito, bloqueava o caminho, caído ao chão. Ele pediu desculpas,
depois de olhar em meus olhos e sorrir. Aquilo me deixou puto da vida, mesmo
sem imaginar o motivo. Me lembro de ter perguntado, com bastante raiva:
– Quem você pensa que é para me chutar assim?
– De que adianta, para você, meu camarada, saber quem eu
sou, se não sabe quem você mesmo é? – A
resposta dele era uma pergunta, praticamente sussurrada, depois de se aproximar
e se abaixar bem perto de mim.
– Eu sou um furúnculo na bunda da sociedade! – respondi com minha mais profunda filosofia da época; mesmo sem saber,
naquele momento, o que era filosofia. Não devia satisfação a ninguém, mas não
podia perder aquela chance de tirar o pirata de sua postura de sabichão,
tacando, na cara dele, as minhas verdades, há tanto tempo entaladas na
garganta. Minha fúria deixava minhas palavras frias e duras: – Sou um cara
gentil com as mulheres, mas não sou nada bonito, sou enorme e gordo! Nenhuma
mulher me ama e jamais amará! Sei construir coisas como ninguém! Mas, não sei
ler nem escrever e nunca confiaram a mim um trabalho que eu faria de olhos
fechados e de maneira muito mais inteligente do que os letrados, presos nas
idéias dos outros. Minhas invenções sempre assustaram as mentes acostumadas a
não ousar. Nunca tive uma família, sempre fui sozinho, rumando de reino a reino
para me apaixonar por uma donzela, que nunca iria me querer... porta batida na
minha cara. Louco para expor minhas idéias, de aparelhos que tornariam a vida
muito mais agradável para todos... portas batidas na minha cara. Passei a me
alimentar de lixo e comia tanto, com medo de não achar mais no momento
seguinte, que me tornei este balofo, tão gordo que mal tem forças pra se
levantar! Então, não me venha me dizer que não sei quem sou! Sou um acabado que
só tem a raiva como amiga!
– Você está redondamente
enganado, meu amigo! – foi o que ele respondeu, olhando para minha
barriga avantajada. Aquele puto sem mãe de uma figa podre! Eu estava prestes a
rosnar, quando ele continuou, dizendo: – Sua raiva é prova de que você não sabe
quem é. Sua raiva é por nunca terem permitido que você soubesse. Sua raiva é
por ter desistido. O caminho mais fácil é o caminho da perdição. Tomou este
caminho. Você, no entanto, precisa se encontrar. Repito: este é o caminho mais
fácil. É claro que é difícil suportar o fracasso, mas, muito mais difícil é
sustentar a vitória. Se você tivesse lutado para conquistar seu espaço, teria
de continuar lutando para mantê-lo. Desistiu em algum lugar e tomou a direção
que o trouxe até aqui. Sua raiva não é sua amiga. É um monstro marinho que lhe
devora aos poucos. Você gostaria de se livrar dela, mas não tem coragem de se
soltar da âncora na qual a sociedade lhe amarrou. Foi marrado por outros sim,
mas andou na prancha e pulou, por livre vontade. Poderia ter lutado mais. Podia
ter lutado até o fim de suas forças.
– Foi o que fiz! – rosnei.
– Não. Guardou um pouco de força sim, que agora usa para
xingar e apontar culpados.
Ele falava olhando em meus olhos e tinha falado como
realmente se importasse. Não me lembro de alguém ter feito isso antes. Ele me
olhava como igual. Alguém que apenas fez escolhas diferentes das dele,
apenas isso. Acho que ele percebeu que eu não ia mais gritar e me perguntou:
– Quer descobrir quem você é? Quer saber até onde
consegue ir? Estou recrutando marujos e lhe darei uma chance de mostrar o que
pode construir.
– Quer que eu construa equipamentos para suas atividades?
- perguntei.
– Me referia à uma nova vida para você – ele respondeu,
rindo. – Mas, construir equipamentos e armas para mim, pode ser parte desta
vida, certamente. Em breve poderei pagar por isso. O que me diz? Quer ser mais
do que um furúnculo na bunda da sociedade? Pois, isso, eles podem esconder
debaixo de um pano bem costurado. Vamos atingí-los onde eles sentem de verdade:
em seus colares, braceletes, anéis... tudo o que for de ouro. Não se
surpreenda, meu amigo, pois seriam capazes de suportar algum desconforto nos
fundilhos, mas não suportariam em ser privados de ostentar a riqueza com a qual
se identificam. Nossa sociedade também não sabe quem ela é. Vamos ajudá-la a se
olhar no espelho sem procurar por um brilho que não seja o de seus olhos!
Ele ofertou sua mão e gostaria de dizer que a segurei e
me levantei. Mas mudar não é fácil. Ele podia ter vontade, mas apenas isso não
bastava. E quanto maior a vontade, maior a frustração; o fracasso. Sabia disso
por experiência própria. Preferia agonizar com os ferimentos já obtidos.
O pirata não tinha moedas. Ele prometia poder pagar em breve e em breve parecia
melhor do que o nunca no qual me encontrava mas, ele era um sonhador. Admitiu
estar planejando um grande feito mas, não tinha sequer um navio. Não teve
receio de revelar, aliás, não tinha nada além de sua vontade e que fazia
questão de começar assim, para poder saber com quem ele poderia contar de
verdade. Somente aqueles que confiassem nele, de fato, o seguiriam. Era sua
única exigência. Cada qual teria seu papel e isso deveria ficar bem claro. Ele
tinha tudo planejado. Seria um trabalho de muitas provações, ele não negava.
Não seria nada rápido, não seria nada fácil, mas não seria, também, nada
ordinário. O que ele tinha a mostrar, ele dizia, era uma possibilidade de
muitas possibilidades...
Diante de sua certeza inabalável, me senti ainda mais
medíocre. Diante de sua coragem, me senti ainda mais covarde. Odiei Ônix
Pedra-Negra, quando o conheci, e o odiei ainda mais quando ele partiu, naquele
dia, por ver que não me moveria. Me deixou no chão daquela taverna com meus
pensamentos. É, ele já havia me amaldiçoado. Não podia deixar de olhar para
tudo ao meu redor e imaginar se seria possível mudar aquela realidade.
Meu desconforto se tornou tão grande que meu plano de
morrer lentamente naquela taverna, entorpecido por goles de rum derramados em
minha goela por uma alma um pouco menos atormentada do que a minha, enquanto eu
amaldiçoava a humanidade, já me parecia mais um bom plano. Teria, dali em
diante, de me culpar, juntamente com a sociedade. Ônix Pedra-Negra me deu uma
chance e neguei...
Lembrei-me de tanta coisa que descobri e que mudaria o
mundo. Mas a sociedade não queria mudar. Mudar não é fácil. Até hoje, costuram
as duras botas feitas de couro. Um dia inteiro, quase, para um par ficar bem
costurado, quando seria mais fácil juntar as partes, colando-as com um grude,
feito com a partir do simples aquecer da resina retirada da madeira mais usada
nas construções. Sem a resina, a madeira não cria mofo e dura muito mais. Isso
é inteligente. A resina, no entanto, é jogada fora em quantidades enormes. Isso
é estupidez. Quando revelei poder terminar uma bota em poucos minutos, ninguém
aceitou a novidade. A sociedade, mais de uma vez, não me deixou mostrar como
poderia ser mais eficaz. Assim como as mulheres nunca me deixaram mostrar como
eu poderia ser mais carinhoso e atencioso do que qualquer homem. Eles eram
idiotas e comecei a me perguntar se eu era tão diferente deles. Também não
aceitei mudar, quando Ônix Pedra-Negra me deu uma chance.
Criei forças e me levantei, a muito custo; físico e
emocional. Saí da taverna lentamente e bastaram poucos passos com o sol da
manhã atrás de mim, para que eu parasse e pensasse: “O que estou fazendo? O mundo não tem mais nada para mim e eu não tenho
mais nada para o mundo...”
Olhei para minha sombra no chão, um grande círculo
escuro, e não pude deixar de rir, ao repetir algumas vezes, para mim mesmo, em
minha mente, as palavras do pirata: “Redondamente
enganado... redondamente...”
Ônix Pedra-Negra tinha senso de humor, isso ninguém podia
negar, mas tinha algo mais. Ele sabia de algo que eu não sabia e minha pergunta
seguinte foi: o que diabos um pirata saberia sobre o mundo, ou sobre mim, que
eu não poderia saber? E minha conclusão foi: “Muitas coisas, se, enquanto eu estava desabado num chão, ele estivesse
se preparando para esta grande aventura a brilhar em seus olhos.”
Virei para o sol, com determinação. A luz iluminou
diretamente minha cara acostumada às sombras e a contorci, cego por alguns
segundos. Acredito que é assim mesmo. Quando estamos acostumados com a
escuridão e alguém nos mostra a luz, a primeira coisa que fazemos é contorcer a
cara na careta mais horrenda que sabemos fazer.
A primeira coisa que vi, quando meus olhos se acostumaram
com a luz do sol, com os músculos da cara ainda repuxados, foi uma bela garota.
Estava parada, olhando para mim. Sua expressão era de medo. Não. Pavor descreve
melhor. Nunca esquecerei os olhos arregalados dela. Lindos olhos, de um azul
profundo. Ela era linda. Éramos exatamente o oposto um do outro. Eu era enorme,
grosseiro, feio e ainda fazendo uma careta, enquanto ela era esbelta, graciosa
e linda. A mais linda que já vi em minha vida. Sua pele era clara, os cabelos
vermelhos, bem lisos e curtos, sequer tocavam os ombros. Os lábios, minha
nossa! Carnudos, um pouco entreabertos, como se fosse dizer algo. “Mais uma garota linda que nunca me deixaria
tocá-la.”, pensei. E novamente senti o hálito do fracasso em minha cara
suja. Até a cara de medo dela era linda. Aquela criatura não conseguiria ficar
feia nem se quisesse. Ela se esforçou para despertar de seu espanto e continuar
seu caminho, não sem olhar para trás algumas vezes enquanto andava rapidamente.
Provavelmente por medo de ser perseguida, por um monstro, pensei.
Tudo o que eu queria naquele momento era uma adaga para
cravar em meu peito e acabar de uma vez por todas com todo aquele sofrimento.
E, ao olhar para o lado, vi uma mão, envolta em trapos, oferecendo-me a mais
brilhante adaga que meus olhos tinham visto. Seria uma alucinação? Seria o
demônio? Virei rosto para ter certeza.
Diante de mim, saído não se sabe d'onde, estava um velho,
com barba tão longa como seus cabelos, muito mais brancos do que o manto
encardido a envolvê-lo. Brancos também eram seus olhos, completamente, de uma forma
assustadora. Mesmo não olhando para mim, senti que aquele velho me via, como
nem mesmo eu fazia.
Ele não falou nada. Apenas suspendeu a mão um pouco, como
se dissesse: “Aqui está, sua adaga
mortal, para por um fim nisso tudo...”.
– O que quer, velhote? – perguntei. Minha voz o mais
grave possível. Queria assustar o velho, ou disfarçar o meu susto, não sei
dizer.
– Não interessa o que quero. Interessa, agora, é o que
você quer – ele disse.
– Mais um... – resmunguei. – É amigo do pirata?
– De certa forma – ele respondeu. – Assim como sou seu
amigo também.
– Meu amigo? – perguntei, incrédulo. – Oferecendo-me uma
adaga para eu me matar?
– Eu disse que era para você se matar? – o velho me
pegou. – Por que eu faria isso?
– E para quê é esta adaga? – perguntei, nervoso; comigo,
não com ele.
– O pirata precisa de sua ajuda – o velho respondeu. –
Ele se meteu em problemas e vai morrer se você não o salvar. Está amarrado
agora, numa praça pública, onde será enforcado.
– Não tenho nada a
ver com isso, velhote...
– Sim, tem tudo a ver com isso – ele me interrompeu. –
Você é um construtor. Como bem sabe, cada peça é importante num mecanismo. Se
você não fizer sua parte, o pirata morrerá e não fará a parte dele e o mundo
perderá um brilho que está longe de ser o farol que deve ser. E, se você está
pensando em se matar, como parece ser o caso, pode muito bem tentar salvá-lo.
Se falhar, morrerá e terá atingido um dos objetivos, de qualquer forma.
Ele riu. Algo naquilo tudo fez certo sentido para mim. Se
eu falhasse, merecia morrer e colocava um fim naquele sofrimento todo. Mas, se
eu conseguisse ajudar o pirata, talvez provasse para mim mesmo que era capaz de
algo.
O velho me mostrou qual direção seguir. Caminhei rindo,
nervosamente, de mim mesmo, ao sonhar em realizar um grande feito do qual me
orgulhar. Não sentir vergonha de mim, já seria um grande passo; imaginar que
poderia sentir orgulho, fazia meu coração disparar. Algo queimava no meu
estômago, cada vez mais intenso e mais acelerado, assim como meus passos,
transformados, em pouco tempo, numa corrida.
Feito uma criança, me imaginava salvando o dia de forma
triunfal, derrubando soldados e mais soldados com golpes de um mestre de artes
de combate, que eu não era. Mas, em minha imaginação, havia os aplausos das
pessoas boquiabertas com meus movimentos.
A cada passo minha excitação aumentava, juntamente com os
sons de uma multidão na praça na qual eu logo chegaria. Imaginei seis... não;
dez soldados! Que derrubaria um a um, com minha descomunal força e com a adaga
do velho cego.
Ninguém seria páreo para mim. Afinal, eu era imenso e
isso deveria me dar alguma vantagem. Quando cheguei na praça, porém, meu
coração quase parou, assim como os passos acelerados. Havia mais de cinqüenta
soldados. Muito mais, com certeza. E quase toda a cidade estava reunida.
***
O
charuto de Rola-Pança terminou e ele fez uma pausa. A mulher estava em silêncio
e ainda nas sombras. Talvez ela aproveitasse aquela deixa para ir embora, sem
ouvir o restante da história. Ou talvez ela o escutasse até o fim e o matasse
para evitar que ele tentasse avisar Ônix sobre a ameaça. O bigodudo homem não
tinha como saber.
Se a
mulher esperava para matá-lo após seu relato de como o pirata Pedra-Negra
entrou em sua vida, para que ele entendesse quando foi que escolheu seu caminho
para aquela morte, Rola-Pança não teria pressa em terminar o relato,
certamente.
Se a mulher havia decidido poupá-lo, cabia a
ela decidir se o que escutava era interessante o suficiente para ir até o fim.
– Aceita
um chá preto? – Pança perguntou. Sempre que acabava de fumar apreciava um chá
preto bem forte. Era quase um ritual.
– Não –
ela respondeu. – Mas pode buscar para você.
O chá
ela não tinha aceitado mas, pelo visto, havia aceitado escutar a restante daquela
história, Rola-Pança pensou. Enquanto pegava o chá, porém, lhe ocorreu que ela
poderia apenas estar esperando para matá-lo quando voltasse com o chá. Ou
poderia simplesmente ter partido assim que se viu sozinha na sala.
“Será
que chego ao meu fim hoje? Ou será que chego ao fim da história? Ou chego a
ambos?” Rola-Pança se perguntava, enquanto esquentava seu chá.
Encheu
uma caneca com o líquido quente, voltou para a sala e ficou bastante surpreso
ao chegar lá.
***
Rola-Pança
Capítulo II – De pé
Rola-Pança
parou sob o arco da entrada da sala. A surpresa não se devia ao fato de a
mulher ainda estar lá e sim de estar, agora, ao alcance da luz.
Em
frente a sua enorme poltrona havia uma cadeira bastante requintada, até. A
mulher estava sentada ali. Entre os dois assentos havia uma mesa baixa de
metal. Sobre a mesa estava a única lamparina acesa.
A mulher
estava de costas para Pança. O imenso homem se perguntou se isso seria um sinal
de confiança nele ou se ela o provocava a atacá-la para justificar matá-lo.
Segurando
sua caneca quente com ambas as mãos, Rola-Pança passou pela mulher e sorriu.
Ela não retribuiu o sorriso. Olhava para ele com a frieza de uma assassina. Era
linda. Cabelos negros como uma noite sem lua. A pele muito clara. Um ar de
soberania e convicção a tornavam uma mulher ainda mais fascinante.
– Vai
continuar agora? – ela perguntou.
– Ah!
Sim – ele falou. – Cheguei na praça onde o Pirata Ônix Pedra-Negra seria
enforcado e, naquele instante, quem ficou sem respirar fui eu. Por um breve
instante, certamente por não ser uma corda a prender meu ar e sim a estupefação
ante aquela realidade.
***
O palanque para enforcamento era imenso e alto. Havia
mais de vinte soldados de cada um dos lados e mais de trinta em cima da
estrutura de madeira, onde os criminosos eram enforcados.
Fiquei boquiaberto. Não fazia sentido. O pirata Ônix
Pedra-Negra não podia ter tido tempo de realizar o seu grande feito, ou
qualquer coisa que o fizesse ser digno de tamanha pompa. Aquilo era um
espetáculo para execução de um famoso procurado, no mínimo.
Foi um menino de olhos esbugalhados, segurando um rato
branco, quem me esclareceu o que acontecia, ao me perguntar:
– Eu e o senhor Jota... – Ele ergueu um rato. – ...
podemos subir em seus ombros, senhor? Gostaríamos de ver como Raposa-Cinzenta
vai escapar.
Raposa-Cinzenta era um velho procurado por crimes contra
o rei Ulysses de Valdrick. Há tempos era perseguido e, pelo visto, a caçada
havia chegado ao fim. Não se tratava do Pirata Ônix Pedra-Negra. “O velho cego
havia me enganado?”, Indaguei-me. “A intenção dele era me fazer simplesmente
imaginar como seria realizar algo? Para me fazer sentir aquele treco na
barriga? Sentir alguma emoção, que não a angústia que me dominava?”
– E como sabe que ele vai escapar, guri? – perguntei do
alto dos meus quase dois metros, em direção ao pirralho de olhos esbugalhados.
– Ele não está sozinho – o moleque falou, com brilhos nos
olhos. – Tem um pirata com ele. Raposa-Cinzenta foi cercado por muitos soldados
e o pirata veio ajudá-lo. Eu os vi lutando em frente à loja de laticínios do
senhor Degrouse, ali atrás, onde eu trabalho de assistente. Acredite, meu
senhor, nunca vi nada assim. Eles derrubavam um por um. Foi fantástico! Tenho
certeza de que vão escapar agora. Teriam escapado da primeira vez, não fosse...
Deixei de ouvir o que o menino dizia, pois a multidão
gritou, alvoroçada. Os dois prisioneiros eram empurrados escada acima por
alguns soldados. Vi o home que devia ser o Raposa-Cinzenta e, atrás dele, vi o
pirata Ônix Pedra-Negra e ele me viu. O maldito sorriso dele apontou, por
poucos segundos, em sua boca. Ele inclinou-se aos ouvidos daquele que era o
verdadeiro merecedor daquele espetáculo. Claro que não ouvi o que ele disse,
assim como mais ninguém além de Raposa Cinzenta, mas senti que ele falava de
mim. O maldito esperava que eu fizesse algo. Pior: ele sabia que eu faria. Como?
Hoje, me divirto em imaginar se aquilo foi um plano do
pirata Ônix Pedra-Negra. E se ele simplesmente ajudou Raposa-Cinzenta a
enfrentar os soldados para ser preso? Era bem provável, até, que ele mesmo
tenha denunciado o tal famoso procurado, para serem presos. Tudo isso apenas
para me colocar à prova. Mas, ele não podia saber se eu faria algo e se eu
teria algum êxito, aliás. E, por isso, digo que, se ele agiu assim, fez uma
aposta. Ele apostou sua vida, ao acreditar em mim. Se ele vencesse, continuava
vivo e ganhava um aliado; em verdade dois. O respeito de Raposa-Cinzenta ele já
tinha conquistado, e não era por menos. Depois entendi o motivo.
Se, naquele dia, Ônix Pedra-Negra tiver apostado, quero
acreditar que ele acreditava que, se perdesse a aposta, era melhor fracassar
sem ter ido longe demais.
Seríamos dois apostadores, então. Havia decidido que
seria alguém ou não seria. Morreria tentando, com um pouco de glória, ao invés
de viver com muita vergonha.
Tratei de olhar ao redor da praça: o velho mestre das
apostas, com uma tocha, perto do palanque, gritava, rindo: “Num enforca esses maldito. Quêma eles
tudo!”. O lado esquerdo do palanque dava para um estreito beco, que se
tornou estreito graças à nova casa de um nobre, em construção. Do lado direito
do palanque, havia um escorredouro, que começava junto à parede da primeira
casa, pois a praça era em declive de lá para cá. Por ele a água da chuva
passava por baixo da base de todas as casas até a base da igreja, ainda
inacabada, no fim da praça, no ponto mais baixo, atrás de mim. Mais rápido do
que imaginei que imaginaria, tinha um plano e comecei a agir.
– Ei, moleque! – falei para o menino de olhos
esbugalhados. – Quer viver sua própria aventura? Vamos ajudá-los a escapar!
Os olhinhos dele arregalaram-se ainda mais e sua boca se
abriu para me mostrar apenas alguns dentes, num sorriso de fascínio.
Sabia qual era a loja de laticínios do senhor Degrouse,
onde o moleque trabalhava. Perguntei se ele poderia conseguir lá, um rolo novo
de cordas grossas, uma garrafa da bebida mais forte e um belo pedaço de queijo.
Ele disse que conseguiria, fazendo de conta ser um pedido para um cliente e que
voltaria logo. Estava muito empolgado.
Subi pelo canto da praça, certificando-me de que o
escorredouro tinha a espessura certa. Atravessei para o outro lado e, da
entrada do outro beco, vi o arauto desenrolar, no alto do palanque, a lista dos
crimes de Raposa-Cinzenta. Rezei para ser extensa o suficiente. Alegrei-me ao
ver vi os barris no beco, atrás da nova construção, como esperava ver. Olhei
para o final do beco e não havia saída dali, recém fechado com uma mureta. Meu
plano já seria arriscado sem, aquele detalhe. Era a melhor alternativa, no
entanto.
Rolei os barris para o final do beco e enquanto os
esvaziava. Encontrei uma serventia para eles, instalando-os estrategicamente
perto da mureta.
Após estes preparativos, voltei para a praça e procurei
pelo moleque. Ele já me esperava onde nos falamos. Fui até ele e me surpreendi
em ver que, sozinho, havia conseguido trazer tamanha corda pesada. Ele suava
bastante, o magricela, mas estava feliz.
Descemos até o final da praça. Algumas pessoas passavam
por nós, correndo para não ver o enforcamento mais de perto. Contei ao moleque
o que deveria fazer e ele subiu com o pedaço de queijo, deixando comigo a
garrafa com a bebida, o rato e a corda. Puxei um fio dela e envolvi o peito o
animalzinho como se fosse um colete. Com outro fiapo o prendi, através do
pequeno colete, na ponta da corda grossa.
. O rato também faria seu esforço.
O menino chegou ao início do escorredouro, lá em cima, e
colocou bem na entrada. Por minha vez, enfiei o rato na entrada perto de mim e
vi a corda se desenrolando, escuridão à dentro, levada pelo bicho. Às vezes
parava, para aumentar minha aflição, mas continuava. Não poderia esperar para
saber se isso daria certo.
Levantei-me e fui com a outra ponta da corda até um balde
de metal amarrado a outra ponta da corda
que se subia até a torre mais alta da Igreja de Dáverus. Amarrei a minha corda naquele balde e entrei na igreja.
A construção não tinha nenhum vigia, pois não havia nada
que podia ser levado dali ainda. Subi diretamente até a torre, suando meus
medos. Cada segundo era importante. Meu corpo queimava e, quando cheguei ao
topo, o vento frio quase me congelou. O que eu estava prestes a fazer mudaria
tudo para mim.
Olhei do alto para a praça lá em baixo. Ônix Pedra-Negra
e Raposa-Cinzenta ouviam a lista de crimes do segundo, pelo qual os dois
morreriam. Ônix sabia que ele não era a estrela principal e seu nome sequer
seria perguntado ou citado. Era apenas o comparsa. E sem minha ajuda, morreria
assim. Mas, sem a ajuda dele, eu teria morrido sem imaginar que era possível
viver. Eu me sentia vivo, como nunca senti.
Um arrepio tomou
conta do meu corpo quando me virei para a enorme estátua de Dáverus, envolta em
tecido grosso, recém colocada na platibanda da torre, como os rumores, sempre
constantes na taverna, haviam me dito.
Muitas cordas envolviam a estátua, envolta pelo pano. E
amarradas nelas, muitas outras iam dela para as colunas enormes atrás de mim.
Estavam bem esticadas para impedir que alguma caísse graças a algum eventual
vendaval, antes que pedras de reforços fossem colocadas. Estas pedras seriam
trazidas para cima no balde, amarrado a uma corda que podia ser puxada,
trazendo-o para cima.
Fui para o
parapeito e puxei rapidamente o balde, onde havia amarrada a minha corda.
Peguei a ponta dele e, sem perda de tempo, a passei pela imensa roldana, que a
trouxe lá de baixo, antes de dar voltas e voltas na enorme estátua de Dáverus.
Ouvi um farfalhar alto atrás de mim e me assustei. Virei
em posição de combate. Vi apenas um pombo deixando a torre. O susto me deu
força extra e tratei de usá-la para empurrar a estátua gigante até tirá-la de
seu eixo.
Urrei um bocado e finalmente ela se deslocou e teria
caído da torre, não estivesse presa ás imensas colunas pelas cordas grossas.
Não pude deixar de pensar que foi muito mais fácil, para mim, mover aquela
gigantesca estátua, do que foi para Ônix, me mover da taverna. Mas, ele
conseguiu fazer isso em tempo e esperava que eu também tivesse tempo para fazer
o que ousadamente havia planejado.
Molhei, com a bebida forte, as cordas que rangiam por
sustentar tamanho peso daquela estátua enorme. Consegui faíscas com duas pedras
pude colocar fogo nas cordas. Tratei de correr escadas a baixo, imediatamente.
Minha descida foi ainda mais rápida que a subida.
Quando saí da igreja, vi o moleque
lá em cima, no início do escorredouro, com seu rato e a ponta da corda na mão.
Ele sorria maroto esperando para a segunda parte de sua missão. Para tal ele
precisava de uma distração: eu.
Subi rapidamente pela praça. Peguei a tocha do homem que
mal sabia construir uma frase, derrubando-o facilmente, tão magricela era.
Caminhei para a entrada do beco, do lado esquerdo e olhei para o palanque, onde
ainda acontecia a leitura dos crimes.
O velho Raposa-Cinzenta tinha do que se orgulhar. Ônix
olhou para mim. As cordas já estavam ao redor do pescoço, assim como no pescoço
do novo amigo. As mãos estavam amarradas nas costas. O carrasco já estava com a
mão na alavanca que liberaria as aberturas por onde os corpos ficariam
pendurados. Eu tinha medo. Muito medo. As cordas em chamas no alto da igreja
não iriam agüentar muito tempo.
Enchi a boca com o resto da bebida e me aproximei do
palanque cercado de soldados. Coloquei a tocha em minha frente e em direção aos
pés do homem da lei mais próximo de mim.
A baforada de fogo chamou a atenção de todos. A leitura
dos crimes foi interrompida e todos os soldados voltaram-se para mim.
O guarda atingido pela baforada pulava para apagar o fogo
em suas pernas e a multidão se afastou um pouco. O tumulto revelava minha
pretensão de salvar os prisioneiros e, por isso, soldados vinham em minha
direção.
O moleque teve tempo de fazer o que pedi. Torci para dar
tempo. A corda no alto da torre de Dáverus ardia, já havia um bom tempo...
Enchi a boca com mais bebida e
ameacei com a tocha, mirando em cada soldado que tentava se aproximar, mas
recuava ante a ameaça. Olhei por cima deles e vi que o menino já estava no
segundo nó no palanque. Era mais ágil do que imaginei. Cada nó era importante.
O primeiro prendia a corda ao pino principal daquela estrutura e o segundo, no
final da corda, prendia a corda enrolada numa das vigas de sustentação.
Gosto de imaginar que via as cordas cedendo ao fogo lá em
cima da torre, enquanto o menino corria pra longe com seu rato branco, mas, o
que vi mesmo foi a estátua de Dáverus cair do alto da igreja, puxando
violentamente a corda que amarrei a ela e que passava por baixo do escorredouro
por toda extensão da praça, desde lá em baixo até lá em cima, de onde a corda
saía.
Antes que a
estátua tocasse o solo, se espatifando num estrondo assustador, a corda
explodiu o pino da estrutura com o primeiro nó e, quase no mesmo instante,
puxou uma das vigas com o segundo nó.
A grossa corda arrebentou-se no processo, mas o solavanco
na viga foi forte o bastante para tirá-lo do lugar e ninguém no palanque,
carrasco, soldados ou prisioneiros, se movia. Qualquer movimento traria o palanque
abaixo.
Os soldados que estavam no chão já não prestavam restavam
atenção em mim. Tentavam entender, petrificados, olhando do início da praça lá
em baixo para o palanque prestes a cair. Somente o povo corria, assustado, para
todos os lados.
Lembrando agora, realmente não
acredito como acreditei que aquilo poderia ter funcionado. Mas, por sorte,
acreditei, mesmo antes de descobrir que nossa mente consegue afetar a
realidade, como Holdur, o velho cego, veio a me contar mais tarde, numa de suas
muitas visitas. É, me tornei amigo do velho cego. O poder de nossa mente sempre
foi forte, ele dizia, mas foi ampliado ainda mais, neste Novo tempo, nos
permitindo fazer coisas que, antes, eram consideradas improváveis. Holdur me
disse que ainda vai me dizer como este salto aconteceu, e, não duvido. Vi,
várias vezes, a vontade sustentar coisas até o momento certo, para ser tolo de
não acreditar.
Ônix pareceu entender meu plano e deu um passo à frente,
esticando a corda no seu pescoço. Um ranger miúdo cresceu. O palanque desabou.
Durante a queda, Ônix ergueu as pernas e passou as mãos,
ainda marradas, para a frente. O impacto da plataforma no solo quebrou, de um
dos lados, a estrutura na qual as cordas para o enforcamento estavam amarradas.
Ônix e o velho Raposa-Cinzenta escorregaram, pendurados pelo pescoço, até
caírem para fora da plataforma, rolando para o chão.
Raposa-Cinzenta se mostrou hábil e num pulo passou as
mãos para frente. Todos os soldados que estavam no alto da plataforma caíram,
uns em cima dos outros.
Os soldados no chão alternavam os olhares entre eu e os
dois prisioneiros do outro lado. O estrondo da queda da estátua de Dáverus
abalou o senso de dever deles.
Percebendo a
confusão dos homens, aquele que deveria ser o general, ordenou um ataque aos
prisioneiros. Todos correram em direção a Ônix e o velho Raposa. Alguns
tentavam passar por cima de seus amigos, caídos do palanque, outros tentavam
levantá-los para juntos avançarem.
Sinalizei com a tocha, indicando o beco atrás de mim,
Ônix e Raposa-Cinzenta entenderam. Ao invés de correrem na direção oposta ao
ataque dos soldados, vieram em minha direção, na direção dos soldados.
Confiaram em mim. Aquilo me fez sentir importante e sorri, sem querer, vendo os
dois subindo na parte mais baixa do palanque, perto deles e correndo para a
parte mais alta, próxima a mim.
Enquanto os soldados iam pelo chão, os dois vinham, pelo
alto do palanque e rapidamente saltaram, parando ao meu lado.
Os soldados, com visível transtorno, voltaram. A tocha em
minha mão, porém, juntamente com a garrafa de bebida forte, os fizeram se
lembrar da cusparada de fogo. Vinham devagar, cautelosamente. Provavelmente
sabiam que o beco atrás de nós não tinha saída. E sabiam que eu não poderia
cuspir fogo em muitos deles. Estávamos em aparente desvantagem.
Cuspi fogo nos soldados mais próximos. Os fugitivos, ao
meu lado, esticaram as cordas que amarravam seus braços. Coloquei a garrafa
debaixo do sovaco e, com a mão livre, saquei a adaga que o velho me deu e os
libertei rapidamente.
– Corram até o final do beco. Os barris ajudarão a
subirem na mureta – ordenei.
– Não vamos fugir de uma boa briga – Ônix falou.
– Aliás, quem os impedirá de vir atrás de nós? – O velho
Raposa perguntou.
– Eu impedirei – respondi e completei, antes de encher a
boca novamente de bebida: – E não vamos fugir duma boa briga, vamos fugir duma
péssima morte! Eles são muitos! Corram! Mas, com cuidado. Derramei, pelo chão,
o que tinha nos barris.
Eles correram e eu também. Os soldados vieram atrás, como
uma avalanche e, quando estávamos na metade do beco, na parte limpa do chão, me
virei e cuspi mais fogo. Não na direção deles. Mirei chão, coberto de uma certa
resina, retirada da madeira mais usada nas construções, como a casa nova, que
tornava o beco ainda mais estreito.
Os soldados hesitaram enquanto eu tacava mais bebida na
boca e cuspia fogo e mais fogo pelo chão. Eles esperavam o líquido do ter fim.
Era uma questão de tempo, eu sabia. Não importava, seria o suficiente.
Acho que já mencionei minhas descobertas que facilitariam
a vida de muita gente. Até hoje, costuram as duras botas feitas de couro. Um
dia inteiro, quase, para um par ficar bem costurado, quando seria mais fácil
juntar as partes, colando-as com um grude, feito com a partir do simples
aquecer da resina retirada da madeira mais usada nas construções. Sem a resina,
a madeira não cria mofo e dura muito mais, Isso é inteligente. A resina, no
entanto, é jogada fora em quantidades enormes.
Até aquele dia, sabia que minhas descobertas facilitariam
a vida de muita gente. Só não havia imaginado que salvariam minha vida e a de
meus novos amigos. A construção na esquina indicava que barris de resina
estariam ali atrás, para serem jogados fora.
Quando a bebida inflamável acabou, me pus a correr. Os
soldados vieram atrás. O calor no chão tinha sido o suficiente para o grude se
prender nas solas das botas dos soldados a ponto de provocar algumas quedas.
Ônix e Raposa-Cinzenta já estavam em cima de alguns
barris e esticavam as mãos para me ajudarem. Eu era pesado demais, porém.
Imaginei que os traria de volta para baixo. Parei. Olhei para trás, para os
soldados desconcertados, presos ao chão, e resolvi ir em meu tempo.
Quando consegui subir num barril,
meus dois companheiros de aventura já estavam em cima do muro. Ônix me alertou
e virei-me. Um dos soldados tinha tirado sua bota e corria em minha direção,
com a espada em riste. Senti-me em desvantagem, pois eu tinha apenas a adaga. A
espada dele poderia atingir minhas pernas sem que eu conseguisse alcançar seu
braço. Nos poucos segundos que gastei pensando nisso, outros dois guardas se
soltaram e vieram igualmente com suas espadas firmes nas mãos.
Vi os três vindo
em minha direção. Aquilo estava saindo do controle, precisávamos fugir, antes
que todos os soldados se soltassem do grude.
Não podia deixar Ônix e Raposa-Cinzenta descerem para me
salvar. Eu tinha apenas uma adaga, mas era a adaga, dada por um velho místico.
Devia ter um propósito maior do que cortar as cordas dos fugitivos.
Enchi-me de
coragem e a saquei a adaga, gritando de forma triunfal, como jamais sonhei
fazer, com tamanha ferocidade que a deixei cair...
Senti-me um idiota. Os soldados estavam a poucos passos
de mim.
***
Rola-Pança fez uma
pausa. Tinha acabado de tomar o último gole de chá preto e resolveu colocar a
caneca sobre a mesa. Próxima ao lampião.
A mulher diante dele
esperava. As pernas cruzadas. Os braços dela sobre os braços da cadeira. Ao seu
lado estava uma espada embainhada. Novamente ele estava desarmado ante uma
ameaça. “Ela será mesmo uma ameaça a
mim?”, ele se perguntou. Sobreviveu ao salvamento de Ônix e
Raposa-Cinzenta, certamente, mas não tinha certeza se sobreviveria à visita
daquela assassina.
A mulher notou o
olhar de Rola-Pança para sua espada e esperou ele se recostar novamente em sua
cadeira para dizer:
– Não sou uma ameaça
a você. Não me deu motivos. E só serei uma ameaça a Ônix se ele o fizer.
Rola-Pança teve de
rir.
– Olha, moça, se tem
uma coisa que Ônix faz é dar motivos.
– E ainda assim me
disse que acreditava estar colaborando com ele ao me revelar seu paradeiro,
mesmo quando eu disse que ele provavelmente seria apenas mais um a morrer em
minhas mãos. Por quê?
– É por isso que me
escutou até agora? Para entender isso? – Pança perguntou.
– Sim. Mas seu relato
até agora não foi desinteressante. Pelo contrário.
– Pois terá esta
resposta – Rola-Pança revelou. Agradava-lhe ter alguém querer escutar sobre
seus tempos de aventuras. – Antes de chegar a este ponto, porém, preciso
concluir a relata sobre aquela escapada. Ah! Se preciso!
O homem pensou ter
visto um sorriso no rosto da bela mulher. A máscara de frieza, no entanto se
firmou ali novamente e não deu sinal de que cederia. O coração de Pança, porém,
teve um alento de esperança de que as revelações que faria tivessem alguma
valia no julgamento da mulher em relação a Ônix Pedra-Negra. Se fosse o caso,
ele o teria salvado mais uma última vez.
***
Capítulo III – De volta ao chão
Rola-Pança limpou a
garganta para continuar seu relato sobre como impediu que Ônix Pedra-Negra
fosse enforcado. Ou melhor: sobre como teve seu papel em tal fuga já que,
encurralado pelos soldados, sobre os barris encostados na mureta, abaixo de
Ônix e do velho Raposa-Cinzenta, ambos fora de perigo; Rola-Pança teria se
tornado apenas um nome a ser lembrado, não tivesse sido resgatado.
Não tinha vergonha de
admitir ter sido salvo, enquanto salvava Ônix. Por isso, sorriu para aquela
bela invasora, sentada à sua frente, e continuou seu relato.
***
Os três soldados vinham. Outros logo estariam soltos. Eu
estava perdido. Desarmado e paralisado. Como se enfeitiçados, porém, os dois
soldados pararam. Olhavam para cima e largaram as espadas.
Olhei para trás e vi três flechas apontadas para os
soldados. Ônix e Raposa tinha as cordas de seus arcos esticadas como seus
lábios. Sorriam em triunfo. A terceira pessoa com um arco e flecha era quem
havia trazido tais aparatos bélicos. Era a moça linda que tinha visto quando
saí da taverna, a tal garota mais linda que já vi na vida. E nesta fração de
segundo, minha fé foi restaurada: A adaga foi vital para desamarrar os
fugitivos pois, assim, eles eram três mirando em três alvos. Se fosse apenas
ela, dois soldados poderiam me alcançar e me fazer de refém.
Subi na mureta e fugimos para um lugar abandonado. Era
usado como refúgio por Raposa-Cinzenta em momentos como aqueles.
Enquanto recuperávamos o fôlego, desatei a rir. Não sei
se por nervosismo, alegria, ou os dois. Todos riram também. A primeira a falar
foi a garota ruiva. Ela falou, simplesmente. Veio de joelhos até ficar de
frente para mim, mirou seus olhos profundos nos meus, e perguntou:
– Como você fez isso?
– Amarrei uma corda, num rato, que passou pelo
escorredouro para alcançar um queijo. Amarrei a outra ponta da corda na estátua
de Dáverus, e garanti que ela cairia. Meu pequeno ajudante; não o rato, mas o
menino dono dele, amarrou a ponta levada pelo bichinho no palanque enquanto
eu desviava a atenção dos soldados...
Ela riu, como se eu tivesse fazendo graça, e perguntou
novamente:
– Sério, me diz, como fez isso. Como leu minha mente?
Quando olhei para você esta manhã, pensei em pedir sua ajudar para salvar meu
pai, mas não tive coragem. Afinal, quais razões teria para me ajudar?
Provavelmente era mais um cara insensível como tantos outros, admito ter
pensado. Mas não era. Você sentiu que eu precisava de sua ajuda. Como?
Os olhos dela brilhavam com lágrimas. Ah! Como me senti
tentado a dizer que ela estava certa, para simplesmente conquistá-la. Mas o que
respondi foi:
– Não. Não senti que precisava de mim... digo... de minha
ajuda. Havia conhecido o pirata e resolvi ajudá-lo. Não por ele, mas por mim;
por minha glória. Era isso que eu queria. Queria me sentir vivo e ele só me
proporcionou condições para isso. Esta é a verdade.
Ela ergueu as sobrancelhas e sorriu novamente antes de
falar:
– Tudo bem. Você não tem a sensibilidade para ler minha
mente, mas tem sensibilidade para ser sincero. Com você mesmo e comigo; sem
querer me enganar para me impressionar. – Ela sorriu. – Não conheço homens
assim. E quer saber? Isso me deixou impressionada!
– E, se vocês querem saber, precisamos comemorar! –
exclamou o velho Raposa-Cinzenta. – Conheço uma taverna onde podemos celebrar,
sem nos preocupar com visitas de soldados.
– Sim, temos muito a comemorar! – Ônix falou. – Vidas
foram salvas hoje!
Ele estava certo. Vidas. Incluindo a minha.
Celebramos noite adentro. Ônix e Raposa-Cinzenta
conversaram bastante e o velho deu muitas dicas para Ônix, de como não ser
preso. Os dois não teriam sido aprisionados, aliás, como o moleque teria me
contado, se a população não tivesse o interrompido ao ver os condenados serem
empurrados para o palanque, se Leila, este era o nome da filha de
Raposa-Cinzenta, não tivesse sido feita de refém.
Eles se entregaram para ela ficar livre. Claro que ela
foi levada também, mas, por não ter culpa de ser filha de um ladrão, e
ser extremamente linda, ela foi escoltada para a casa do general, que se
tornaria "responsável" por ela, dali em diante.
Leila escapou, no entanto. Faria de tudo para libertar o
pai. Sentia-se culpada, aliás. Não gostava de ser vista como fraca e, não fosse
ela, tudo poderia ter dado errado, esta que é a verdade.
Foi assim que conheci Ônix Pedra-Negra. Devo a ele o que
sou hoje, se parar para pensar bem. Ele me tirou daquela taverna. Me fez
acreditar. Fui um dos seus primeiros marujos. É claro que foi difícil entender
quando ele desmantelou o grupo.
Depois de dois anos ele dispensou todos nós. A maioria da
tripulação lamentou e alguns se irritaram, até. Mas, no dia em que realizou o
que é conhecido até hoje como seu maior feito, Ônix Pedra-Negra pagou um preço
alto para continuar vivendo. Em verdade, ainda não terminou de pagar.
Dizem que o preço
para continuar vivendo e ter proteção é tão exorbitante, que corre sério risco
de Ônix não pagar antes de seu prazo de um ano terminar. Se isso acontecer, a
única proteção que tem, o tal capitão Hawk, se tornará seu carrasco.
Meus camaradas disseram que ele desistiu, ao se entregar
assim à tal dívida. A traição que Ônix sofreu, no entanto, transformou seu
grande fito num grande fracasso.
Para ser sincero, duvido muito que Ônix considere, de
verdade, ter realizado a sua maior proeza. Não era aquilo que ele tinha em
mente, quando o conheci. Faltava algo. Talvez aquela proeza fosse apenas um
passo para o verdadeiro feito. Um passo que precisava ter dado certo.
Daí fica fácil entender suas razões de ter desistido.
Resisti em acreditar que ele tinha desistido, confesso. Hoje, porém, encontrei
Ônix Pedra-Negra, após tantos meses e minha resistência foi quebrada.
Vi Ônix Pedra-Negra caído no chão da mesma taverna na
qual nos conhecemos. A taverna do Coelho Caolho. Ele está vivendo quase que da
caridade de Gertrudes, a atendente.
Quando o vi caído ali, no chão daquela taverna, me
abaixei e falei, olhando bem nos olhos dele:
– Este não é o seu lugar, cap... meu amigo. – Minha raiva
já tinha passado. Fui um dos que não entendeu. Havia me comprometido a acatar
às suas decisões, porém, sem questionar, e assim fiz. Isso, no entanto, amargou
em minha alma durante um tempo, mas se foi. Ele disse, no dia em que nos
dispensou, que ainda iria se redimir aos olhos de todos.
– Rola-Pança, meu grande
amigo! Sabe que suas palavras sempre terão peso para mim – Foi o que me respondeu, aquele puto sem mãe de
um figa podre, quando o chão de madeira forte rangeu a um movimento meu. Não
pude deixar de rir. E ele continuou: – Mas, estou no exato lugar onde mereço e
devo estar, no presente momento. Você não teria recuperado sua vontade de fazer
algo grandioso, se não a tivesse perdido, não é mesmo? Não teria aprendido a viver
de pé, caso não tivesse desistido de sobreviver de joelhos. Se não tivesse
“sub-vivido”, tombado ao chão. Agora é minha vez de passar por este caminho.
– Sempre achei que você estava alguns passos à minha
frente, e não atrás –falei, pesaroso. – Aquela maldita traição foi uma facada
nas costas, bem sei...
– Dezesseis mil duzentas e noventa e cinco facadas, para
ser exato, numa só noite – ele enfatizou. Sabia a quantidade exata, afinal,
havia dado dez moedas de ouro para cada pessoa que recrutou. O povo pelo qual
ele tanto lutou. Pelo qual nós tanto lutamos. Levaram todo nosso ouro e toda a
nossa esperança.
Senti um amargo em minha boca e, antes que pudesse falar,
ele continuou:
– Assim como o corpo demora um pouco para se curar, a
alma também tem seu tempo. “O que a lagarta chama de fim, o mestre chama de
borboleta.”, escreveu, muito tempo atrás, um sujeito esperto para o seu tempo,
Richard Bach era seu nome... um camarada e tanto do velho e esquecido tempo. Um
brinde a ele...
Ônix ergueu uma garrafa quase vazia e bebeu um pouco do
líquido, brindando a um escritor do passado esquecido. Eu já sabia que a
contagem de nosso calendário havia substituído outra. O passado deveria ser
esquecido e estas informações eram tão secretas, que o pirata Ônix Pedra-Negra
não imaginava que eu as tinha.
Vez ou outra Ônix nos revelava algo, mas, quem me contou
sobre muitos detalhes do velho tempo foi meu amigo, Holdur, o velho cego, que
me visita vez ou outra. Holdur me contou que Ônix Pedra-Negra teve acesso a
registros do passado esquecido, não apenas em livros, mas também através do que
eram chamados de filmes; formas mágicas de contar histórias.
Havia muitas histórias fantásticas e o pirata acreditava
que todas elas aconteceram de fato. Holdur me disse que Ônix Pedra-Negra
passaria por uma grande provação, encarando, de uma forma intensa, a verdade
sobre o passado esquecido. Isso aconteceria num momento de grande dor para ele,
quando a fé nele mesmo seria testada, antes de realizar o maior dos maiores de
todos os seus feitos.
Vendo-o ali no chão, me perguntei se seria este o momento e se seria eu a
contar para ele que tudo o que ele acreditava ter acontecido, era pura
imaginação de outros, meras histórias chamadas de ficção.
Aquele momento era, certamente, um momento de grande dor
e, mesmo acreditando em meu velho amigo cego, que enxergava além dos tempos,
soube que o fiapo de esperança de Ônix, nele mesmo, se desfaria ali, se eu
revelasse o que eu sabia.
Os heróis do passado haviam inspirado Pedra-Negra e ainda
tinham seus papéis na alma do pirata. Ele esperava por algo, mas não era esta
verdade. Não ainda. Ele esperava por alguém, pude sentir. Alguém que desse uma
razão para sua existência, ajudando-o a cumprir uma promessa.
Acredito ser você,
tal pessoa. Por isso estou lhe revelando tudo isso. Se ele tinha de encarar a
verdade sobre o passado-esquecido, e encontrar seu lugar no mundo, não seria a
partir de minhas palavras. Citar o tal Richard Bach, um escritor do velho
tempo, mostrava que sua crença no passado o fortalecia, de alguma forma. Tratei
de reforçar este otimismo e tentar aliviar seu fardo, perguntando com um
sorriso:
– Está me dizendo que o ferimento não foi fatal? Que não
desistiu ainda?
– Ora, quem pensa que sou, marujo? – Me olhou com alguma
fagulha daquele mesmo brilho que tinha nos olhos quando nos conhecemos.
– É o maior pirata de todos os tempos... – falei.
– Não – ele disse, novamente entristecido e quase
apagando na bebedeira. – Ainda não... mas, quem sabe amanhã?... Semana que
vem?... No próximo mês?... Vou tentar reservar um tempinho para isso...
depois... agora, tudo o que preciso, e aprecio, é um bom gole de rum...
Ele bebeu o resto do líquido de uma garrafa e fechou os
olhos. O olhei por alguns instantes e depois falei, sem ter certeza se ele
ouviu:
– Ninguém de nós, da sua tripulação, o traiu naquele dia.
O seguiríamos, se não tivesse nos enxotado. Teríamos ajudado a se livrar do
capitão Hawk, aliás. Sabe disso não é?
– A omelete está quase pronta, minha linda Liz... – foi a
última coisa que ele murmurou, feito um menino. Provavelmente sonhava com
alguém importante, de muito tempo atrás, e me dei conta de não saber muito
sobre seu passado, tanto quanto não sabia sobre seu futuro. Só me restou
esperar que fosse o melhor para este meu amigo cabeça-dura.
***
A luz da lamparina iluminava muito mal a sala de
Rola-Pança mas foi o suficiente para notar alguma comoção no rosto da
assassina.
– Devo a Ônix Pedra-negra o meu mais valioso tesouro – o
homem falou, muito sério. – Minha amada Leila. Devo a ele tudo o que conquistei e me tornei. O homem sujo e analfabeto
cedeu lugar a um alguém respeitado por muita gente, incluindo ele mesmo.
A Mulher nada disse. Apenas suspendeu o capuz de sua
capa, ocultando seu rosto em sombras. Estava quase de partida. Rola-Pança ainda
achava que tinha mais a dizer, no entanto, e continuou:
– Devo a ele meu velho amigo Holdur, que contou o real
motivo de minhas invenções nunca terem tido uma chance, antes do advento do
pirata Ônix em minha vida. O velho cego me contou sobre o que quase destruiu o
mundo no passado-esquecido. A tecnologia, como era chamada a coisa, havia
nascido assim, com invenções que facilitariam a vida e acabaram por quase
exterminá-la. De alguma forma os governantes deste mundo trataram de manter as
invenções sob controle. Holdur disse
que, inconscientemente, aliás, toda a humanidade tinha medo, causado pelo
trauma, da tecnologia. E se não fosse por Ônix, nunca teria descoberto isso.
A mulher se colocou de pé, pendurando a espada na
cintura.
– O que aconteceu, entre o dia que vi o pirata Ônix
Pedra-Negra pela primeira vez e quando o vi, hoje, foi algo grandioso, ninguém
poderia negar – o antigo marujo falou, balançando o volumoso bigode. Queria
defender seu capitão o quanto podia. – O que virá depois, no entanto, é ainda
maior. Tenho certeza. Enquanto ele acreditar, e sei que em algum lugar ele
ainda acredita. A vida do pirata
Ônix Pedra-Negra ainda vai mudar a vida de muita gente. De quem não está
acostumado a ver muitas perspectivas de algo e, principalmente, de quem está.
A mulher nada disse, virou-se de costas e deu um passo.
Teria ido embora. Pança, porém, falou:
– Como disse: já não acredito em coincidências. Encontrar
meu antigo capitão, na mesma taverna onde ele me encontrou, na mesma situação
na qual eu me encontrava, no mesmo dia em que fui encontrado por alguém que
quer encontrá-lo... só pode ser um sinal da vida.
A assassina manteve o silêncio, embora tinha mantido,
também, sua presença.
– Acredito haver uma razão para tudo e a razão de
acreditar é minha fé na vida – o homem falou. – Um conselho que lhe dou, sobre
Ônix, é: se tiver uma chance de embarcar na aventura dele, se permita. Quanto
mais você souber sobre Ônix Pedra-Negra, mais saberá sobre você, pois ele, de
uma forma divertida e intensa, te
faz pensar... e isso não tem nada de ordinário.
O dia iria nascer em breve. A
assassina virou a cabeça para Rola-Pança como se fosse dizer algo. Não disse,
porém.
– Eu o deixei ali, na taverna do Coelho Caolho,
caído, mas, sou capaz de apostar que, neste momento, ele está de pé, pois,
quando saí de lá, esbarrei no mestre das apostas que entrava com um prisioneiro
esfarrapado. Conheço Ônix o suficiente para saber que ele ajudaria um
miserável. Pois foi o que ele fez por mim. Com sorte, verá a razão de Ônix
Pedra-Negra ir além das lendas contadas sobre ele.
– Isso se eu acreditar em tudo o que já
escutei sobre ele – a mulher disse.
– Sobre a veracidade de tudo o que descobriu e vai
descobrir sobre o pirata Ônix Pedra-Negra... bem, certa vez ele próprio me
disse: "Se você tiver fé na vida ela terá fé em você e, com esta comunhão, tudo
é possível!" – Rola Pança se colocou de pé e ofereceu sua
mão, dizendo: –Já que tanto falei a ti, posso ao menos saber seu nome?
– Me
chamo Mégane de L’arc – ela respondeu. Não apertou a mão de Pança, no entanto.
O nome
era famoso, certamente. Por um lado, Rola-Pança ficou aliviado por ter contado
a localização de Ônix, como ela desejava. Mégane de L’arc era uma assassina
insuperável e nunca fracassava em seus interrogatórios. Ela caçava como ninguém
e não era dada a perdoar. Por outro lado, aquela revelação trazia dúvidas a
ele. Mégane era uma cigana e Ônix sempre evitava os ciganos o máximo que podia.
Chegava a ficar bastante alterado, em evidente irritação, À mera menção daquele
povo nômade. E Rola-Pança o entendia. O capitão havia lhe confidenciado que,
durante a infância, precisou ficar sob os cuidados de um cigano. O tutor era o
homem mais cruel neste mundo, segundo Pedra-Negra e os exemplos citados pelo
capitão convenciam o marujo.
– Alguma
possibilidade de se tornar amiga de Ônix? –
Rola-Pança ousou perguntar.
– Estou
numa missão – ela respondeu. – Pelo que sei, Ônix Pedra-negra tem informações
vitais para meu êxito. Eu o matarei se for preciso, tenha certeza disso.
Mégane
deixou Rola-Pança a sós. O semblante do grande homem permaneceu preocupado por
um bom tempo. O tom de voz da mulher denotava sinceridade. Era firme, embora
houvesse notas de pesar. Eram estas que validavam suas palavras.
Não
importa o quanto o antigo marujo tenha tentado ajudar seu antigo capitão,
exaltando-o, ele não apostaria contra as palavras de Mégane e, sendo ela uma
cigana, duvidava muito que Ônix fosse colaborar, para ajudá-la.
Por um
bom instante considerou ter cometido um erro ao revelar a localização de seu
antigo capitão. Seguiu seu coração, porém, como o próprio Ônix havia lhe
ensinado. Restou confiar que assim deveria ser.
O sol
nasceu com a saída de Mégane. Pança teve certeza de que, em breve, bastaria
perguntar por aí e teria detalhes sobre o resultado do encontro do pirata Ônix
Pedra-Negra com cigana assassina Mégane de L’arc.
***
INESPERADO
Minha arte se tornou parte da minha
vida e minha vida se tornou parte da minha arte. Escrevi um livro sobre um
pirata e o interpreto em peças teatrais adaptadas. O interpreto por tantos anos
que meu visual cotidiano remete a ele.
Certa vez estava num evento, ao lado
de um palco, aguardando o momento de entrar para mais uma apresentação teatral
e um garoto veio até mim. Meu visual pirata ia além da bandana do dia a dia.
Trajava o figurino completo, incluindo as espadas. O garoto parou ao meu lado e
perguntou:
– Você é um pirata de verdade?
– Sim – respondi, depois de alguns
segundos. Percebendo a dúvida no olhar do menino, completei: – Se a verdade for
o que eu quiser que ela seja.
– Ah! Assim não vale. Isso é trapaça!
– a criança falou, um pouco indignada.
– É o que nós, piratas, fazemos –
falei, sorrindo.
A criança sorriu também.
*
O garoto assistiu a apresentação. Pude ver sua admiração, em diversos momentos, estampada no rosto. Imaginei que ele viria me cumprimentar no final e dizer que queria saber mais sobre o pirata. Não veio, no entanto.
Para o garoto tinha bastado,
provavelmente, e havia sido apenas uma apresentação teatral; fantástica, mas
irreal de um personagem de um livro. Uma mente tão jovem não poderia
compreender a verdade.
Aprendi a olhar através do tempo para
possíveis futuros. Um deles me chamou a atenção, em especial, e era sobre ele
que eu escrevia. Certamente é apenas um futuro, de muitos. Nem por isso é menos
real. Independentemente disso, o que importa é o que a aventura nos conta. Como
diria o pirata Ônix: “O bom da mentira é
nos fazer sentir algo de verdade”.
Se você estiver disposto apenas a
considerar a possibilidade, lhe convido a embarcar neste navio e tirar as
próprias conclusões.
*
Imagine o futuro. Mas, imagine o futuro como o passado. Ou melhor;
imagine um futuro no qual a tecnologia moderna foi abandonada por ter se
tornado tão perigosa a ponto de quase ter destruído a humanidade. Para
sobreviver, os remanescentes resolveram seguir um modelo de vida mais simples,
inspirados na antiga era medieval. Visando, porém, impedir que as desavenças do
passado não fossem herdadas pelas novas gerações, toda a história da
humanidade, até então, deveria ser esquecida.
O modelo de sociedade ficou. A história
do passado foi enterrada, juntamente com os vestígios da era tecnológica. Uma
era neo-medieval teve início e, alguns séculos depois, os piratas começaram a
surgir.
Nesse futuro, um garoto foi levado até
as raras relíquias do passado esquecido; que nada mais eram do que livros e
filmes, preservadas por aqueles que conheciam a verdade oculta. Havia um
aparelho que se alimentava de energia do Sol e, através dele, o tal garoto pôde
se deslumbrar com muitas aventuras. E, por acreditar que todas elas realmente
aconteceram, e que todos aqueles personagens realizaram tantos feitos
maravilhosos, ele acreditou que nada era impossível.
Inspirado em heróis do velho tempo, o menino cresceu e se tornou o pirata Ônix Pedra Negra, para viver a própria aventura, repleta de mistérios e um tiro na perna.
Inspirado em heróis do velho tempo, o menino cresceu e se tornou o pirata Ônix Pedra Negra, para viver a própria aventura, repleta de mistérios e um tiro na perna.
*
Capítulo I - O pedido
Para quem conseguia saltar de alturas
absurdas e executar pirueta no ar a partir de impulso próprio, o esforço para
simplesmente andar era mais do que um esforço físico. Era angustiante.
O pirata Ônix Pedra-Negra estava
enfiado debaixo de uma capa com capuz de couro velho. A razão disso não era a
chuva fina que caía. Ele andava com dificuldade, disfarçada na lentidão. Havia
levado um tiro na coxa esquerda, fazia semanas. A bala feriu a carne e resvalou
num dos lados do fêmur. O capuz ajudava a mantê-lo escondido e fora de lutas
que não poderia vencer naquele estado. Se conseguisse passar despercebido por
pelo menos mais uma semana, teria mais chances de sobreviver para realizar o seu
grande plano, bolado com extrema ousadia. É sempre um “se” que faz toda a
diferença.
Ônix olhou ao redor e viu uma
movimentação típica daquela época do ano na região. Pouca gente. Lojas sem
muitos produtos. Era o terceiro mês do ano 522 do Novo Tempo.
Ônix mirou uma construção destruída e
foi naquela direção. Sentia cada passo. O esforço fazia a perna ferida parecer
em chamas. O corpo todo esquentou. Entre as paredes destruídas, repletas de
buracos, em meio ao mato que crescia no que antes foi uma casa enorme, ele
jogou o capuz para trás e mirou o céu nublado. O telhado não estava destruído.
Simplesmente não havia mais telhado.
A chuva fina molhou seu rosto. O calor
do esforço foi aplacado. Sentiu o vento frio. Adorava água fria. Despertava
seus sentidos. Sorriu. Escutava as gotas que se formavam no mato pingando na
terra. O sorriso desapareceu, no entanto, ao ouvir passos atrás dele.
Estivera sendo seguido e não
percebera. O ferimento era uma praga maior do que imaginou. Manter o movimento
da forma mais natural possível, para não evidenciar estar ferido, lhe exigia
toda a sua atenção. Essa era sua única vantagem e teria de bastar naquela
situação.
Se alguém o procurava, sabia de suas perícias
elevadas de combate. A reputação era sua única defesa. Muitas vezes venceu
lutas sem precisar lutar. Embora, nessas vezes, ele poderia ter lutado, se
preciso fosse. Não era, definitivamente, o caso naquele momento.
– Olá – a agradável voz feminina
saudou atrás dele.
Ônix se virou, lentamente. Sentia dor,
mas colocou um sorriso jovial no rosto. Se fosse uma oponente, não devia notar
nele qualquer sinal de insegurança. Se não fosse uma, também.
– Olá – Ônix respondeu.
– Não se lembra de mim, não é? – Ela
apertou os lábios, esticando o sorriso, enquanto erguia as sobrancelhas. Era
uma mulher de cabelos escuros, debaixo de uma touca de pano, feito as de
empregadas. O vestido era simples, mas limpo. As mãos dela estavam para trás.
Ônix não se lembrava dela.
– Claro que lembro – ele disse.
– Sou a Éfyn – ela, evidentemente,
notara a mentira descarada do pirata. O nome não ajudou.
– Claro que é – ele insistiu, sem ter
ideia de quem poderia ser.
– Daquela noite na tenda escura – ela
foi mais específica.
– Ah! – o rosto do pirata iluminou-se
com a lembrança e a surpresa. Finalmente sabia quem era. – Isso foi há bastante
tempo!
– Quase oito anos – ela confirmou. Colocou
uma mecha fugitiva de cabelo atrás da orelha e sorriu. Tinha charme e o pirata
notou.
– Bem; tenho os próximos dias livres
por causa de umas férias forçadas; veja que sorte. – Ônix deu um passo lento na
direção dela. A velocidade reduzida era tanto para não demonstrar anseio em
estar perto dela, o que sempre mantinha a coisa interessante, quanto para que
ela não notasse seu ferimento. – Somos crescidos agora. Não precisamos mais de
tendas escondidas nas sombras.
– Não posso – ela falou. Havia algumas
notas de pesar em sua voz. De trás dela saiu um menino, magrinho, de cabelos
negros e encaracolados, na falta de um corte recente. A criança pegou a mão da
mulher e olhou para o pirata por um breve instante, antes de mirar o chão.
– Ó, entendo – disse Ônix. Abaixou-se,
ajoelhando e apoiando na perna boa. Arrependeu-se da ousadia. O mero dobrar da
perna machucada o fez sentir novamente o fogo interno na ferida. Para disfarçar
o desconforto, perguntou: – É seu filho?
– Sim.
– E quantos anos ele tem? – perguntou
o pirata, sorrindo.
– Quase oito – ela respondeu,
soerguendo as sobrancelhas e esticando os lábios num sorriso um tanto
desconcertante. O pirata se levantou. A expressão era séria. Dor e suspeita. A
chuva fina deixou de cair, como se o céu parasse para observar aquela cena com
mais atenção. Ônix mirou Éfyn nos olhos e balançou a cabeça em negativa. A
mulher balançou a cabeça em afirmação, de forma bem discreta. O pirata fez uma
careta.
– Preciso que cuide dele por mim, por
uns dias – Éfyn foi objetiva.
– É que estarei muito ocupado nos dias
seguintes, veja que falta de sorte. – Ônix falou, recuando ante o impacto das
palavras da mulher. A criança apertou a mão da mãe, olhando para o lado oposto.
Éfyn colocou a mão livre na cintura e esboçou uma cara de fúria. Ônix entendeu
o recado e coçou a barba de seu cavanhaque, pensativo. Voltou a se aproximar. Mantendo
a careta, disse diretamente para a criança: – Mas, talvez, eu possa ficar de
olho em você um tempinho... dias... apenas... e como amigo, tudo bem?
– Tudo bem. Só namoro meninas mesmo – o
menino falou, sacudindo os ombros e segurando um riso.
– Dinho! – a mãe levou a mão esquerda
para tampar o rosto.
– Que foi? Papo estranho do moço. Eu
hein!... – ele riu para a mãe e depois olhou, sério, para o pirata.
– Ah! Ele tem senso de humor... – Ônix
disse. Não podia deixar de admirar a ousadia da criança.
– Ele puxou o pai – disse Éfyn,
categórica. Antes que Ônix pudesse dizer algo, o menino perguntou para a mãe,
embora olhasse para o pirata:
– É ele não é? Ele vai brincar de faz
de contas comigo, não vai?
– Não, não é – Ônix disse. – Não, não
vai.
– Vai sim, querido – Éfyn se ajoelhou
diante do filho, segurando seu rosto com as duas mãos. – Seu pai só está
assustado agora. Ele adora fazer de conta. Olha bem pra ele. Está fazendo de
conta ser um pirata, como se fosse o outro de verdade, daquela história que ele
me contou, e que eu te contei, lembra? Ele faz isso para realizar algo no qual
ele acredita muito...
– Algo que nada tem de faz de conta –
Ônix falou ao menino. – E é muito perigoso para você saber mais do que já
sabe...
– Aquela história do
passado-esquecido, das moedas amaldiçoadas? – Dinho perguntou, mais para
mostrar saber do segredo do pirata do que para confirmar.
–... Que pelo visto é mais do que
deveria – Ônix completou, torcendo um dos cantos dos lábios e olhando com
evidente descontentamento para Éfyn. A mulher deu de ombros e olhou novamente
para o filho diante dela.
– Sim, querido. Aquela história
secreta – falou.
– Não devia ter contado a ele – o
pirata insistiu, quando a mulher se levantou e o encarou.
– E você não devia ter me contado,
pelo que sei – ela se defendeu, sorrindo. – Mas não podia deixar de se gabar
por ser, nesse Novo Tempo, um dos poucos a saberem sobre fatos do
passado-esquecido; não é mesmo? – Ônix mal conseguiu esboçar uma resposta e a
mulher já emendou: – Só preciso que cuide dele por alguns dias. Sete dias. É
tudo o que lhe peço.
– É um bastante tudo – disse o pirata.
Olhou para a mulher e viu o desespero escondido no semblante alegre que
insistia em manter. Ela tinha suas razões e não o procuraria, com tanto
empenho, nessa altura da vida, se não fosse vital. Por isso, falou: – Mas, tudo
bem. Venha buscá-lo no final do sétimo dia e nenhum a mais.
– Não preciso dele! Sei me virar –
Dinho falou, cruzando os braços, emburrado.
– Não consigo imaginar alguém que o
protegeria melhor do que você – Éfyn disse com sinceridade. Ônix colocou a mão
na perna ferida e abriu a boca para dizer algo, mas a mulher o interrompeu: –
Só assim terei paz para fazer o que preciso e é algo muito importante para mim.
Ninguém melhor do que você, também, para entender isso.
O pirata pensou por um instante e entendeu
que Éfyn precisava não se preocupar com o menino para poder se preocupar,
plenamente, com outro assunto e, muito a contragosto, respondeu:
–Tudo bem. Vá logo, mulher, pois
quanto antes for, antes voltará.
– Ótimo – a criança soltou o ar
dramaticamente, quando sua mãe o abraçou forte. – Agora estou preso a um pai
que nunca se importou comigo até hoje.
– E que continuaria a não se importar
se fosse mesmo seu pai; o que não é o caso – Ônix não hesitou em dizer.
– Agradeço de coração – falou a mulher.
Aproximou-se do pirata e o beijou de leve nos lábios. Antes de se afastar dos
dois e disse: – Tenha paciência com ele.
– Vou tentar – o pirata e a criança
responderam em uníssono e se entreolharam com as testas franzidas. A mulher
sorriu e se foi.
– Por que beijou minha mãe? – a
criança perguntou, ainda estática.
– Ela me beijou – Ônix respondeu,
igualmente parado. Pareciam dois adversários prestes a combater.
– Foi assim que fui feito? – o menino
perguntou.
– Mais ou menos... é que... – o pirata
piscou algumas vezes. Ergueu as mãos para demonstrar. Juntou as pontas dos
cinco dedos de cada mão e fez os dez dedos se tocarem, como se estivessem
embolando um papelzinho, numa tentativa de simular um beijo. – O casal se beija
assim e... – Uma das mãos desceu até a base da palma, próximo ao pulso, e as
pontas dos dedos-boca roçaram ali antes de voltar para tocar as pontas dos
dedos da mão oposta novamente. Mão esta que, por sua vez, também desceu até a
base da outra e repetiu os mesmos movimentos da parceira, em retribuição. A
criança fez uma careta. O pirata inverteu as mãos de forma que ambas as pontas
dos dedos, tocassem as bases uma da outra, simulando beijos simultâneos nestas
partes inferiores, por algum tempo, antes de voltarem à posição original, com
todas as pontas dos dedos se tocando. Desta vez, porém, o pirata começou a
bater as bases das mãos uma na outra, cada vez mais rápido. O menino ficou
petrificado em sua posição de descontentamento. O pirata julgou melhor terminar
sua aula. Colocou as mãos na cintura, e disse: – Acho quer foi assim,
provavelmente... Entendeu?
– Estou brincando – o menino falou e
riu, olhando para o lado, como se contemplasse décadas de experiências que não
tinha. – Sei como as crianças são feitas. Sorte minha.
– Ótimo – o pirata disse. – Mas, isso
é assunto de adultos.
– Pra falar disso eu preciso ser
adulterado?
– Bem isso.
– Eu vou ser parecido com você quando
eu for adulto?
– Não, não vai, porque não é meu filho.
– Mas eu posso ter... como chama estes
pêlos ao redor da sua boca?
– Cavanhaque.
– Posso ter um cavanhaque quando eu
crescer?
– Acho que sim.
– Mas eu queria um agora.
– Só se fosse feito com tinta.
– Você faz um cavanhaque com tinta pra
mim?
– Vamos combinar uma coisa? – o pirata
perguntou, apoiado na perna boa. – Você tenta me irritar o mínimo possível e,
se for o suficiente, pinto um cavanhaque no último dia que passará comigo, se
eu estiver de bom humor; o que é bem provável, pois você estará indo embora.
Precisa se esforçar para me obedecer. Não tente me ludibriar.
– O que é ludibriar?
– Sabe como as crianças são feitas e
não sabe o que é ludibriar? – o pirata riu.
– Ainda estou aprendendo muita coisa.
Mas você é adulto com cavanhaque e não sabe o que é ser pai!
– O que foi que combinamos? – O pirata
levantou o dedo indicador para o menino.
– Cavanhaque... cavanhaque... – o
menino disse pra si mesmo, passando a mão ao redor da boca.
– Mui bien – Ônix falou. Voltou a
ficar ereto e concluiu: – Talvez tenhamos uma chance de passar por isso sem
muitos traumas, para mim, é claro.
Enquanto andavam, sem pressa, Ônix
colocou o capuz novamente e perguntou ao menino:
– Dinho é diminutivo de quê?
– Não é diminutivo. É aumentativo. De
muito carinho, minha mãe disse. Ela me chamava de “meu miudinho” e aí virou
Dinho. Meu nome de verdade é...
– Não importa. Não vou te dizer o meu
e Dinho serve para mim.
– William.
– O quê? – o pirata perguntou,
milésimos de segundos antes de deduzir e a criança confirmou.
– É o seu nome. Minha mãe contou.
– E você não vai contar para ninguém.
– Tá bom. Mas isso deve contar a meu
favor no dia do cavanhaque.
– O dia em que me livrarei de você.
– E eu de você.
– Um dia destinado a ser danado de
bom, para nós dois.
Dias depois, Ônix se arrependeria
destas palavras.
*
A vida é feita de momentos alegres e
tristes que se alternam como lados de uma bandeira ao vento. O que pensamos
quando os momentos de alegria estão escorrendo entre nossos dedos é: será que
sobreviverei para ver outro...
Fazia dias que Dinho estava sob a
guarda do pirata Pedra-Negra e o momento de despedida seria um tanto quanto
antes do esperado para ambos.
A mão esquerda de Ônix estava pingando
sangue que escorria entre seus dedos. Havia uma espada na destra. Ele lutava
com um oponente envolto em panos negros, protegendo o assustado menino caído
aos seus pés. Um dos marujos de Pedra-Negra, ao fundo, enfrentava outro
oponente coberto por panos negros.
O navio balançava naquele início de
noite e era possível escutar as ondas se chocando contra rochedos ao longe,
enquanto espadas se chocavam à bordo do Camaleão,
o navio de Pedra-negra.
Ônix foi desarmado e chutou o
adversário para longe. O esforço o fez cair ao lado da criança. Dinho tinha o
rosto pintado. O cavanhaque tão desejado, iluminado pelas tochas ao redor. A
criança olhou para o pirata e se levantou com uma espada de madeira em mãos.
Ônix tentou segurá-lo. Não o alcançou em tempo. Colocou a mão na perna onde
havia levado o tiro e fez uma careta.
Dinho atacou o adversário adulto
envolto em panos negros, vez após outra. O homem se esquivou de todas, sem
dificuldades.
Éfyn subiu a rampa de madeira com o
coração apertado. Escutava gritos de combate e via fumaças subindo ao céu
negro. Quando viu, da entrada do navio de Ônix, seu filho atacando, com uma
pequena espada de madeira, um adulto com uma espada de metal, colocou a mão na
boca para não gritar. O grito poderia ter distraído o pequeno e ser fatal;
embora não fizesse diferença, no fim das contas.
O adversário do menino finalmente
atacou.
Num instante, o metal da espada
brilhou na direção de Dinho e ele posicionou sua espada de madeira para se
defender. No instante seguinte, a madeira, partida em duas, estava caindo e o
menino também.
A mulher não pôde conter o grito. Ônix
olhou para ela. Dinho, jogado no convés, olhou para ela. O homem envolto em
panos pretos não. Ele estava ocupado erguendo sua espada para mergulhá-la de
ponta sobre o menino.
Uma nuvem avançou sobre a lua. O Homem
avançou sobre o menino.
E, em alguns casos, a pergunta não é
se vamos sobreviver aos momentos tristes e sim se vamos querer...
*
Capítulo II - Moedas
Capítulo II - Moedas
O menino estava diante do
imenso homem e teria de lutar por conta própria. Eles estavam no convés
principal do navio batizado de Camaleão.
O sol brilhava no alto.
O menino era chamado de Dinho, embora
não fosse seu nome verdadeiro, e o homem diante dele era chamado de Perrengue,
e também não era seu real nome. O que esperava? Estavam num navio pirata. Um
lugar de mentiras e trapaças. Nomes reais ficavam de fora. Não era um lugar
nada aconselhável para uma criança, muitos diriam. O menino estava adorando, no
entanto, essa é que era a verdade; se é que mencionar alguma, alivia sua idéia
sobre aquele lugar de tantas falcatruas.
– Vamos ver o que
seu pai te ensinou nestes quatro dias – o marujo disse. Tinha a cara fechada.
Apenas muito fechada. A criança o deixava de bom humor. Quem o via com Dinho,
custava acreditar que era aquele Perrengue amargo e agressivo de sempre.
– Bem, a primeira coisa
que ele me ensinou foi a não chamá-lo de pai – disse o menino, erguendo as
sobrancelhas.
– Vamos ver se será a
última – o marujo falou, apontando a espada de madeira em sua mão, desafiador.
A cara, sempre fechada, foi contorcida mais um pouco, de forma bastante
ameaçadora.
– Você não vai me matar
de verdade, né? – o menino perguntou, um tanto incerto.
– Não vou te matar com
uma espada de madeira.
– Nem como uma de
verdade, né?
– Isso é um treino – o marujo
disse, tentando desfazer a cara de mau. O esforço piorava a coisa.
– Tá bom – o menino resolveu
acreditar. Escolheu suas armas: um bastão e um nunchaku. O segundo foi
pendurado no pano amarrado na cintura. Era uma garantia extra.
– Então, vou te mostrar como sou forte!
– Você pode dizer;
mostrar é outra história – Perrengue bufou.
– E será uma triste
história... para você – o menino falou, com a voz tão carregada que Perrengue
teria rido, se lembrasse como fazer isso. Dinho girou o bastão algumas vezes
antes de parar em posição de combate.
– Boa provocação –
Perrengue admitiu, firmando sua expressão de poucos amigos.
– Meu pai... – o menino
começou a dizer, mas, como um ator que erra a fala, retomou, ainda na postura
preparada: – Ônix me ensinou que uma boa provocação mostra coragem e coragem
imitida o oponente.
– Intimida...
– É.
– Vamos ver se luta
melhor do que fala! – Perrengue avançou.
O Marujo atacou algumas
vezes. Certamente sem muito peso e sem velocidade significativa. O menino
bloqueou todos os ataques com o bastão de forma bastante eficiente. Se livrou
da lâmina de madeira, jogando-a de lado e acertou a canela de Perrengue com
força.
Dinho riu com vontade, se
divertindo. A expressão do marujo era assustadora, mas ele não gritou.
Parecia mastigar a dor que logo engoliu. O menino atacou várias vezes,
misturando os malabarismos ensinados por Ônix. Nenhum ataque atingiu Perrengue.
O último foi bloqueado pela espada de madeira do marujo antes que sua outra mão
segurasse firme o bastão e erguesse o menino do chão, enquanto girava o corpo e
lançava a criança longe, do outro lado do convés.
Perrengue jogou o bastão para trás, para ter
certeza de que o menino não o pegaria. Dinho, no entanto, levantou rapidamente,
sacando o nunchaku. Começou a girá-lo, mantendo o marujo afastado. Perrengue
buscava uma brecha. Não via. Teria de aceitar algum golpe para alcançar o
menino e desarmá-lo. Mais alguma dor, ele pensou. Enquanto pensava, o menino
iniciou ataques dos quais Perrengue se desviou por pouco. Logo precisou
bloquear com a espada. Os ataques, porém, não visavam acertá-lo e sim laçar a
espada que foi roubada num único puxão, quando a corrente se enrolou
nela.
Uma vez desarmado, o
marujo deu um passo na direção do menino para agarrá-lo e acabar com a
brincadeira. Não estava lutando a sério mas Dinho estava. Em estado de alerta
total, o menino aproveitou a passada do marujo para girar e bater forte em seu
tornozelo, antes que tocasse a madeira do convés. Foi um golpe forte e certeiro
a ponto de desviar a perna, que estava no ar, para dentro.
O homem tombava ante a
criança. O osso saliente do tornozelo doía numa crescente aguda. Antes, porém, que o grande corpo se
esparramasse no convés, foi atingido por um segundo golpe, vindo de um novo
giro completo das correntes. Uma das barras de metal da arma atingiu com força
as costelas de Perrengue.
O marujo estava caído. A
criança girou o nunchaku algumas vezes antes de parar em posição soberba e
dizer, rindo:
– Viu só. Derrotado com a
força do Donatello e do Michelangelo.
– E quem seriam esses? – o
marujo perguntou, levantando. Esforçava-se para fingir não sentir as dores que
sentia.
– Não são mais. Já foram
– o menino falou. Jogou o nunchaku num canto do navio, antes de continuar: –
Pelo que meu... pelo que Ônix me contou, eram artistas da renasçança. Por isso
eles morreram e renasceram, acho, mas voltaram como tartarugas quase humanas
que sabiam lutar muuuiiito bem.
– Ele devia estar apenas
brincando com você – Perrengue falou. – Às vezes ele exagera...
– Sim – a voz de Ônix foi
ouvida atrás de Perrengue. – Às vezes ele exagera e aceita marujos que duvidam
de suas palavras. Por sorte, as palavras não foram pra você e sim para o
moleque; que devia aprender a guardar segredo.
– Por quê? – o menino
pergunta.
– Não esconderam o
passado da humanidade sem um propósito e tudo o que ameaçar esse propósito é
uma ameaça para este Novo Tempo – Ônix explicou para o menino e depois para si
mesmo: – Tenho de me esforçar mais para não dividir palavras sobre o passado
esquecido.
– Como se alguém fosse
acreditar no que você conta – o menino deu de ombros.
– Mas, se não devo
dividir as histórias do passado esquecido do Velho Tempo, devo dividir isso –
Ônix falou, tirando um saquinho de veludo da cintura. – O tesouro conquistado
naquela operação de ontem foi surpreendentemente farto, para uma operação tão
simples. Tirada a parte de manutenção do navio e armas, restou uma moeda de
ouro para cada tripulante, que inclui vocês dois.
– Eu vou ganhar uma
moeda?! – o menino arregalou os olhos e deixou a boca aberta.
– Você estava no navio
durante a operação, não estava? – Ônix foi retórico mas, como a criança não
sabia nada sobre retóricas, respondeu, eufórico:
– Sim, sim! Puxei um
trilhão de quilômetros de corda pra lá e pra cá e vigiei!
– Então é justo que
receba sua parte – Ônix declarou. – Um primeiro e último pagamento, pois nunca
mais o levarei noutra aventura desta. É perigoso demais e sua mãe me mataria se
alguém te matasse. E não queremos isso. Tivemos sorte. Não foi necessário
lutar, como imaginei que não seria.
A perna esquerda de Ônix ainda
estava ferida e, embora o esforço para não mancar fosse menor, ainda existia.
Arriscou a operação por apostar no medo dos homens naquele navio da realeza.
– Não é amaldiçoada como
daquela história daquele pirata do passado-esquecido, ou é? – o menino
perguntou, pra ter certeza.
– Se você continuar
falando sobre o passado-esquecido, vai trazer problemas grandes para todos nós
– Ônix falou. O menino continuou esperando a resposta e Pedra-negra se deu por
vencido: – Não é amaldiçoada.
– Ela vai pra caixinha –
disse o menino ao pegar a moeda, feliz da vida. – Vai sim!
– Muito bem – Ônix falou.
Entregou a moeda de Perrengue e jogou uma, destinada a si mesmo, para o alto e
a agarrou. Voltou-se para o menino e deu um conselho: – Guarde sua moeda com
sabedoria. Não seja tolo e não a perca em apostas.
– O que me lembra,
capitão... – Perrengue pigarreou.
– Lembra o quê? – Ônix se
fez de desentendido.
– Que você me deve uma
moeda de ouro por aquela aposta – Perrengue falou, mirando o capitão. Parecia
um leão de olho num coelho prestes a fugir.
– O tooolo número um! –
Dinho cantarolou e se afastou um pouco. Buscava uma caixinha que estava num
canto, enquanto estalava a língua em sinal de desaprovação.
Ônix fez uma careta e
olhou da sua moeda para a cara de Perrengue. O marujo tinha um olhar
implacável. O capitão, porém, guardou a moeda no saquinho de veludo e foi até a
criança, fascinada com a primeira moeda de ouro conquistada por seu trabalho no
mar.
– Você acredita mesmo ser
meu filho? – o pirata perguntou, ao se ajoelhar vagarosamente ao lado do
menino. A perna ainda queimava e limitava seus movimentos.
– Minha mãe não mente – O
menino respondeu sem hesitar. O mais firme que uma voz de quase oito anos
poderia ser.
– Pois há uma tradição no
mar e ela diz que todo filho deve, uma vez na vida, dar uma moeda de ouro para
seu pai, para receber proteção das águas. Talvez esta seja a sua única chance
de cumpri-la – disse Ônix. O menino fez uma careta e olhou para a moeda. O
pirata continuou, testando o garoto: – Veja o seu brilho. Uma moeda de ouro.
Uma certeza de que, se precisasse, poderia usá-la para confortos físicos por um
bom tempo... comida... roupas... diversão... mas, se acredita mesmo que sou seu
pai, vai escolher o conforto da alma.
– Existe mesmo essa
tradição? – Dinho perguntou, amargurado. E Perrengue tentou responder:
– Bom, parece que
agora...
– ... e
sempre, foi assim! – Ônix cortou o marujo. Perrengue se afastou, incomodado. O
capitão continuou: – Existe, existiu e continuará a existir...
Dinho olhou para a moeda
e para Ônix algumas vezes. Por fim, entregou o pagamento e, amuado, ficou
mexendo na caixinha para onde a moeda não foi.
Ônix sorriu, triunfante.
Foi até Perrengue, já bastante afastado, e quase sussurrou;
– Pode não ser meu filho,
como sei que não é, mas, já que ficará aqui mais uns dias, é bom que me obedeça
e quanto menos dinheiro, menos independência.
O capitão entregou a
moeda conquistada ao marujo, para saldar a dívida. Perrengue, no entanto, não
parecia satisfeito e foi obrigado a dizer:
– Neste ponto eu queria
te ajudar, capitão. Mas, dívida é dívida...
O marujo chamou o menino.
Dinho veio saltitando. Ônix estranhou. Perrengue entregou a ele a moeda de
ouro, recém recebida do capitão.
– Obrigado, homem de
palavra – o menino disse, aliviado. – Achei que teria de lhe cobrar.
– Ah! Não. Acho muito
feio esquecer que tem uma dívida – Perrengue disse, olhando momentaneamente
para o capitão, que intensificou a careta já existente.
– Você perdeu uma moeda
de ouro numa aposta com ele? – Ônix perguntou para ter certeza do óbvio.
– O tooolo número
dois – Dinho cantarolou, voltando para a caixinha deixada lá atrás. Não lhe
interessava a reposta de Perrengue ao capitão:
– Na verdade não perdi
uma moeda na aposta, capitão...
– Quantas?
– Cinco. E só devo mais
uma – ele confessou. Ônix arregalou os olhos. Perrengue se justificou,
apontando o nunchaku caído: – O menino me derrubou com essa merda de arma
louca!
Do outro lado do convés,
Dinho abriu a caixinha, onde já havia outras três moedas para recepcionar a
nova.
– Então, neste caso, você
ficará com o título de tolo número um – Ônix falou.
– Ah! Quê isso, você não
se contentaria em ser o segundo lugar em algo – disse Perrengue, tentando
parecer camarada.
– Não posso ser o melhor
em tudo – Ônix sacudiu os ombros, como se houvesse pesar naquilo.
– Você seria um bom pai –
Perrengue arriscou dizer, cruzando os braços. Ambos olhavam a criança feliz.
– Mas não sou.
– Como pode ter tanta
certeza? Porque a manipulação sórdida dele só pode ter sido herdada...
– Eu não estive com a mãe
dele – Ônix, revelou, após um breve olhar de desprezo para o marujo, que
mantinha a audácia na cara. – Eu não encontrei Éfyn, mãe do moleque, como foi
combinado. Mandei um amigo dizer que eu não poderia ir. Meu coração já estava
comprometido com um amor que estava destinado a não acontecer, tanto quanto o
de Éfyn por mim. Cheguei a pensar em conceder a ela o que eu jamais
teria. Não achei justo, porém. Meu amigo, no entanto, se aproveitou da
situação. O encontro foi numa tenda escura, num lugar escondido e ele esteve
com ela. Descobri quando ela me agradeceu, no dia seguinte. Estava feliz por
ter tido um momento comigo, mesmo sabendo que seria a única vez. Não tive
coragem de expor a realidade. O sonho de ter me contemplado com seu amor bastou
para ela.
– Então sabe quem é o
pai.
– Sei.
– E porque não conta
agora?
– Primeiro porque ela
ficaria arrasada, se sentindo tola...
– E passaria a odiá-lo
para todo o sempre... – Perrengue fez questão de dizer.
– Isso também. Mas,
principalmente, porque o cara está morto.
– Então por que não
conforta o menino fingindo que é o pai dele?
– É o que estou fazendo.
– Mas sempre que pode diz
a ele que não é o pai.
– Negar é o que ele e a
mãe esperavam que eu fizesse se eu fosse o pai. É um reforço reverso – Ônix falou
e foi a vez de Perrengue enrugar a testa, tentando entender a lógica do
capitão. Não teve tempo. O menino foi até eles com a caixinha aberta numa das
mãos e a moeda nova na outra.
– Vou colocar esta
aqui, junto com as outras, pra ela não se sentir sozinha – Dinho explicou,
agachando-se e colocando a caixinha no chão. Depositou a moeda nela, com
cuidado. Depois de olhá-las ali dentro por um segundo, disse: – Acho que vou
ser um criador de moedas. Elas vão dormir agora. Façam silêncio, por favor – Ele
sussurrou. – Principalmente você, pai.
Ônix se ajoelhou,
com cuidado para não comprometer a recuperação da perna ferida, e sussurrou
para o menino, inclinando-se na direção dele:
– Vem aqui.
O menino entendeu e
aproximou sua orelha da boca de Ônix.
– Eu não sou seu pai,
moleque! – o pirata gritou.
– Eu te paguei uma moeda
para poder te chamar de pai e ter proteção do mar – o menino falou, ainda com
uma expressão de dor. – E não precisa me chamar de moleque. Pode me chamar de
Dinho, como já sabe. E claro que é meu pai. Se não fosse, não teria coragem de
dizer a uma criança tão bacana quanto eu que ela não tem uma figura paterna
para irritar.
Ônix olhou para
Perrengue, atrás dele, e sorriu como se dissesse: “O que foi que eu disse sobre a coisa reversa?”. E voltou-se novamente
para o menino, dizendo:
– Se você fosse bacana,
devolveria minha moeda, já que tem tantas.
– É minha agora. Estou
criando elas – o menino falou, sem lamentar. – Já dei nome a ela. Se chama
Dora e o sobrenome é Dinha.
– E todas não poderiam
ter este nome? – o pirata perguntou, sorrindo discretamente do raciocínio do
menino.
– Até poderiam mas, esta
aqui, por exemplo – Dinho falou, ao pegar outra. –, tem outras razões para ter
outro nome. Tem muitos arranhões e deve ter sofrido muuuuito para estar aqui
agora, em segurança.
– E como vai chamá-la?
– Mas... – Ônix ia dizer
algo. Desistiu, porém. Na garganta surgiu um nó.
– O quê? – O menino
perguntou com certa urgência, já preparado para defender sua cria.
– Nada – foi o que Ônix
conseguiu dizer. Olhou para a cara de Perrengue, mais contorcida do que o de
costume, e novamente para o menino, que estava cobrindo as moedas com um
paninho. Até aquele momento não havia parado para pensar em como foi a vida da
criança até aquele dia, sem um pai para ajudá-los naquele mundo, quando já era
difícil o suficiente havendo um.
Ônix não se levantou e
saiu dali, como planejou. Acabou dizendo:
– Bom, agora tenho de
revelar que a tradição tem uma segunda parte. Ela diz que um pai também deve
dar uma moeda de ouro para um filho, uma vez na vida, e... já que eu não tenho
um filho, podemos fazer de conta que é você. Só agora. O que me diz?
– Adooooro faz de contas.
E este estaria danado de bom pra mim. – Pegou a moeda, retirada do saquinho de
veludo do pirata, com brilho nos olhos. O pesar desaparecendo magicamente.
– Ahá! Então admite que
não é meu filho, já que aceita fazer de conta que é – O pirata falou, para se
desvencilhar, de vez, da vontade secreta de abraçar o menino.
– Estou fazendo de conta
que aceito que não é – o menino riu da inocência do pirata.
Ônix sentiu a perna
ferida e se levantou. O menino fechou as moedas na caixinha e foi para a cabine
do capitão. Pedra-Negra viu a cara de compaixão de seu marujo, ao menos o mais
próximo disso que Perrengue conseguia expressar.
– Se for falar besteira é
melhor ficar calado – Ônix avisou. – Não vai querer testar meu humor. Tenho uma
responsabilidade inesperada aqui. E o inesperado é perigoso e perigo é tudo o
que preciso manter longe desse menino. A mãe não o deixaria aqui se não
precisasse. Ele deve estar sendo procurado por alguém e por algum motivo. O
motivo que deve estar ocupando a mãe. Se ela não tiver êxito, o perigo pode vir
atrás dele. Eu daria minha vida para protegê-lo... é tudo o que precisa ser
dito. Espero que isso explique meu mal humor.
O capitão deixou
Perrengue sozinho, imerso em lembranças nada agradáveis de sua própria vida. E
se pegou pensando que também daria sua vida para salvar o menino, se fosse
preciso. Queria acreditar que o tempo de errar havia ficado para trás. O
futuro, porém, já está escrito; é o que dizem, e não pode ser mudado.
*
–Ÿ— ™˜
–Ÿ— ™˜
Os momentos alegres e
tristes da vida são como luz e sombra. Deles, resultam as mais valiosas obras
de arte. O que aprendemos com elas, pode nos marcar profundamente, pelo
resto da vida, se tivermos coragem de olhar...
O olhar de Ônix saltou
de Éfyn e voltou-se para Dinho, caído sob a lâmina que descia sobre ele. Não o
alcançaria a tempo. Não tinha uma espada ou qualquer outra coisa para
arremessar. Tinha sido desarmado.
O navio balançava, mesmo
atracado, e as tochas, balançando ao vento, ampliavam a dança das sombras no
convés. Num momento de luz, porém, foi possível ver o rosto do menino.
Dinho olhava para a mãe quando o imenso homem
desceu a lâmina sobre ele. Os panos negros, feito asas de uma ave de rapina a
cobrir sua presa, envolveram o menino. Ele não gritou. O Homem ficou estático
por um instante.
“Ônix deve ter dado um punhal para o filho...” Éfyn pensou. Queria
acreditar naquilo. “É agora que o maldito
tombará de lado e meu filho vai se levantar... é gora... tem que ser assim...”
Éfyn se obrigava a acreditar.
O homem envolto em panos negros se moveu. Não
tombou para um dos lados, em queda. Levantou-se. A espada suja de sangue. O
menino quase imóvel. O adversário, cruel, recuou alguns passos. Aguardaria o
pirata, se ele tivesse coragem de se levantar.
Ônix abaixou a cabeça.
Mirava a mão suja de sangue. Um sangue que não era seu. Com muito esforço
voltou a olhar para o menino e se arrastou até ele, enquanto escutava o choro
de Éfyn, um pouco abafado pelas mãos que cobriam seu rosto na entrada do navio.
Perrengue arremessou seu
oponente a alguns metros na direção de seu companheiro, que aguardava Ônix. O
marujo parou ao lado de seu capitão, enquanto o adversário se levantava ao lado
daquele que havia atacado Dinho.
Ônix ergueu um pouco o menino, apoiando suas
costas, e logo viu que precisava sustentar a cabeça para que ela não pendesse.
Os olhos de Dinho estavam quase cerrados, como se lutasse para não cair num
sono de uma noite sem fim. Não era sono, porém; o pirata sabia.
– É apenas uma criança –
o capitão disse ao marujo. – Não devia ter deixado enfrentar este combate ao
nosso lado.
– Sem ele não estaríamos
vivos, capitão... – o marujo disse com convicção.
Éfyn, como se estivesse
embriagada, alcançou o filho. Dinho sorriu o máximo que pôde para a mãe e sussurrou:
– Mãe... você veio me
buscar... mas, não posso ir agora – e, virando-se para Ônix, continuou: – Até
onde eu fui; eu fui... o resto, deixo com vocês... protejam minha mãe...
A pequena mão que se
apoiava no próprio peito caiu inerte ao lado do corpo. A mãe gritou, expulsando
Ônix.
O pirata não se permitiu perder tempo.
Levantou com visível esforço, mirando os dois homens envoltos em panos pretos.
Um deles disse:
– Não pode se
apoiar nesta perna, pelo que vimos. – Apontou para a perna esquerda do pirata.
– Não, não posso. E não
preciso – Ônix falou e começou a subir e a subir, como se dobrasse de tamanho e
quase o fez, ao ser erguido nos ombros de Perrengue, que se enfiou entre suas
pernas, se fazendo de montaria.
O marujo passou para Ônix
um elmo metálico em forma de caveira e duas espadas. O marujo sacou outras duas
espadas e se puseram a girar as quatro, enquanto se posicionavam para o
desfecho daquele duelo. Aquele que havia enfrentado Perrengue chegou a recuar
um passo, antes de seu companheiro olhar para trás, encorajando-o a voltar.
Perrengue, avançou.
Ônix estava firme, com as pernas travadas no dorso do marujo. A junção formava
um monstro assustador, iluminado pelas tochas tremeluzentes ao seu redor.
Toda luta é para evitar
algo. Mesmo que seja uma tentativa de evitar o lamento profundo por algo que
não pode ser evitado. Chamam isso de vingança. Mas é uma luta perdida. O
lamento é um oponente invisível que não pode ser derrotado com espadas e nem
atenuado com nenhuma lâmina.
Para confrontar um
lamento, um guerreiro deve usar uma arma tão imaterial quanto seu oponente.
Apenas a compreensão pode atenuar as perdas. Essa arma, no entanto, é de
difícil manejo e faz dessa luta a mais perigosa. Uma luta que pode matar, um
pouco, até mesmo quem continua de pé... e isso pode fazer muita diferença.
*
Capítulo III - Triste fim Inevitável
A vida é feita de momentos alegres e
tristes que se alternam como lados de uma bandeira ao vento. O que pensamos
quando os momentos de alegria estão escorrendo entre nossos dedos é: será que
sobreviverei para ver outro...
E, em alguns casos, a pergunta não é
se vamos sobreviver aos momentos tristes e sim se vamos querer...
Os momentos alegres e
tristes da vida são como luz e sombra. Deles, resultam as mais valiosas obras
de arte. O que aprendemos com elas, pode nos marcar profundamente, pelo
resto da vida, se tivermos coragem de olhar...
Os momentos alegres e
tristes se encontram, como notas opostas, numa canção que nos toca enquanto a
tocamos...
Não há tempo para novas palavras. As letras
das canções já estão escritas antes de sua execução. Como acontecimentos do
destino. Há momentos dentro dos momentos, onde sequer cabem palavras. Solos
instrumentais. O tilintar do metal de lâminas se chocando.
Ônix estava enfiado
debaixo do elmo metálico em forma de caveira, montado nos ombros de Perrengue,
seu marujo. Cada qual brandia duas espadas, atacando ferozmente os dois
habilidosos adversários envoltos em panos pretos.
O capitão e seu marujo se
tornaram uma máquina de guerra e os adversários não encontravam uma brecha para
atingi-los. Os movimentos da criatura de quatro braços pareciam ainda mais
ágeis, graças ao tremeluzir dos fogos nas tochas a iluminarem o convés do
navio.
Das tochas acesas, exalavam densas fumaças negras
que, sopradas pelo vento, transformavam o convés do navio no próprio inferno. E
o senhor daquele lugar era o monstro de guerra que desaparecia na fumaça
obscura, momentaneamente, apenas para reaparecer, de forma ainda mais
assustadora.
Éfyn ainda soluçava a
balançava o corpo de Dinho, seu amado filho, caído em seu colo. O desespero era
avassalador, a ponto de impedi-la de perceber algo além dele. Todo o resto
desaparecia no vazio de seu coração. A dor da perda era cruel demais.
O combate não durou
muitos minutos. Um a um, os homens de preto tombaram.
O monstro de quatro
braços se dirigiu, lentamente, até a mulher em prantos. Perrengue agachou e
Ônix desceu ao solo, retirando o elmo. Sua expressão era de lamento profundo.
Éfyn deitou o corpo do
menino no chão, com cuidado, e se levantou em fúria para socar o peito de Ônix,
com violência. Ele não se defendeu. Sua careta não era necessariamente de dor.
Perrengue, no entanto, segurou a mulher. Desimpedido, o capitão aproximou-se do
menino e o ergueu nos braços. Já de pé, disse:
– Agora você terá um
enterro digno.
– Não... meu corpo será queimado... – o menino
murmurou, muito baixo, sem abrir os olhos.
– Agora, então, você terá
uma fogueira digna, no alto de um penhasco – Ônix falou.
– Não... penhasco não... vou ser queimado num barquinho... – a voz moribunda do menino corrigiu.
– Barquinho descendo o
rio é bacana – Perrengue falou, emburrado, acima do rosto de Éfyn. – Tipo
aqueles onde uma flecha em chamas é disparada.
– Flecha é bom, muito bom – Dinho concordou, ainda em voz murmurante e olhos fechados. Sorria,
porém, e continuou: – Mas
não antes de um último oponente de negro, já caído, se levantar como um zumbi
maldito super poderoso...
Ao
ouvir as palavras do menino, um dos homens envoltos em panos negros começou a
se levantar, emitindo sons guturais. Parou, no entanto, ao escutar as palavras
de Ônix:
– Nada de zumbi. Aí você
já está abusando – falou ao menino. E disse, na direção do homem que, além de
não mais levantar, caiu novamente: – Detesto zumbis.
Os olhos de Éfyn, ainda nos
braços de Perrengue, estavam arregalados. Ela tremeu quando Dinho reclamou,
ainda de olhos cerrados:
– Mas é o meu faz de contas e todos concordaram em participar.
Só
naquele momento Éfyn lembrou-se do início da semana, quando o menino perguntou
se Ônix iria brincar com ele. A própria mulher havia afirmado que o pirata o
faria. Seu corpo ficou bambo e teria caído, não estivesse nos braços de
Perrengue. Era apenas um faz de contas; ela tinha finalmente entendido.
A vida parece composta
por momentos alegres e tristes que se alternam como lados de uma bandeira ao
vento. É rápido demais para enxergarmos e facilmente somos enganados. Fica
difícil saber quando é um ou outro.
Os momentos alegres e
tristes da vida são como luz e sombra. Deles, resultam as mais valiosas obras
de arte. Meras ilusões que nos levam a ver o que não existe.
Os momentos alegres e
tristes se encontram, como notas opostas, numa canção que nos toca enquanto a
tocamos...
Não há tempo para novas palavras. As letras
das canções já estão escritas antes de sua execução.
O
que esperava? Estavam num navio pirata. Um lugar de mentiras e trapaças.
– Eu... não... não
acredito que me deixaram acreditar nisso – Éfyn falou, perplexa, como se estivesse
despertando de um pesadelo. Cobriu o rosto e respirou fundo. Tremia muito. Não
era apenas reflexo do desespero de segundos atrás. Era ódio.
– Ué, você não estava
atuando também? – Ônix perguntou, sorrindo. – Achei que estava. Ou que,
se achasse que estava perdendo esse menino, iria ficar feliz em levá-lo com
você tanto quanto eu ficarei – O pirata falou e jogou Dinho na direção da mulher.
Éfyn mirou, em fúria, o
pirata que não se importou se o menino pousaria em pé ou não; o que só fez com
a ajuda da mãe.
– Você quase me mata
do coração – Éfyn falou, olhando para o menino e, não se contendo. O abraçou
forte. Quando tornou a olhá-lo, sua expressão era apenas de
alívio. – Ah! Meu filho, nunca estive tão feliz de você estar vivo.
– Ué, porque não? Sou tão legal! – o menino falou, maroto. A boca emoldurada
pelo falso cavanhaque, pintado por Ônix.
– Então você deveria me
beijar, por gratidão – Ônix falou. – Por eu lhe proporcionar um momento tão
feliz!
Éfyn estreitou os olhos
em resposta e o pirata tratou de mudar de assunto:
– Fez o que tinha de
fazer?
– Sim, fiz. Quanto a
isso devo lhe agradecer. Acho.
– Pois agora é minha vez
de continuar fazendo o que preciso. Já estou pronto para alguma ação de verdade
– Ônix falou, girando a perna esquerda para testar se a leve dor ainda era
leve, depois de tanto exercício. Éfyn, porém, sequer imaginou que Ônix se
referia a algum ferimento recuperado. – Tenho de continuar a minha aventura.
– Eu sei – a mulher
falou. Ainda olhava para ele sem acreditar naquela situação. – Seu grande
feito. Que vai fazer com que sua história seja tão fantástica como a do pirata
do passado esquecido.
– Ou mais... –
Perrengue arriscou. E ficou um pouco encabulado quando todos olharam para ele.
Estava passando tempo demais com o capitão a ponto de admirar sua convicção.
– Como se você soubesse
algo do passado esquecido – Ônix comentou, embora, no fundo, tenha admirado a
admiração do marujo.
– Não, não sei –
Perrengue mirou o chão, puto. Não pelo comentário do capitão e sim pelo próprio.
Para deixar oo marujo mais tranquilo, Ônix discursou:
– As inspirações são os
portos de partida, não os de chegada, e, entre um e outro, há muito mar para
enfrentar, com ventos ondas e tempestades diferentes, nos empurrando para todos
os lados, tornando qualquer aventura única e, por tanto, diferente de qualquer
outra. É isso o que importa.
– Tenho certeza de que
conseguirá – Éfyn disse. Pensou por um instante, reconsiderando se entregava ou
não um recado de um marujo de Pedra-Negra. Dinho, estava bem. E tinha se
divertido. Talvez um dia ela conseguisse rir daquela situação toda e acabou
dizendo: – E, como prova de gratidão, trago a informação passada por um de seus
marujos. O encontrei ferido mortalmente, não longe daqui. Ele disse que a
futura sacerdotisa de Dáverus está na nova igreja do deus, na praça central da
capital.
– Sei onde é – Ônix falou.
Mirou o vazio por um instante e Perrengue bufou, atrás dele. O Marujo morto era
Zig-Zig Subaqueira, um bom camarada. A morte estava sempre atrás deles e ônix já
havia sentido seu hálito mais de um vez. – Quase fui enforcado naquela praça,
não faz muito tempo.
– Como você consegue
viver assim... flertando com a morte? – a mulher perguntou, sacudindo a cabeça,
quase arrependida por ter deixado o filho ali.
– E não fazemos isso,
todos nós, de uma forma ou de outra? – o pirata perguntou. – Ao acordar a cada
novo dia?
– Rezarei por você – Éfyn
falou.
– E eu rezarei pra você
não rezar; pois não creio em rezas ou deuses – Ônix falou, cruzando os braços.
– Vamos, meu filho – Éfyn
pegou a criança pela mão.
– Ora! Não vão ficar para
o jantar? – Ônix perguntou, mais afoito do que gostaria. – Ainda temos algumas
horas deste dia.
– Tenho que ir, pirata –
Dinho falou. – Devia ter aproveitado melhor os momentos comigo.
– E quem disse que não
aproveitei? – Ônix perguntou, ao se ajoelhar, quase sorrindo. – E, desistiu de
me chamar de pai?
– Você aceita ser meu
pai?
– Não, não aceito.
– Imaginei. – O menino espremeu
seus lábios um no outro afinando o sorriso.
– Mas posso aceitar que
você seja o meu filho.
– E qual a diferença?! –
o menino perguntou, erguendo as mãos, exasperado.
– A diferença é que não
sou seu pai.
– Foi assim o tempo todo?
– Éfyn perguntou para Perrengue.
– Todos os dias – o
marujo respondeu.
– Eles chegam a algum
lugar?
– Dê mais uns minutos e
estarão discutindo a semelhança entre biscoitos de gergelim e estrelas do mar –
o marujo deu de ombros.
– Não temos mais alguns
minutos. Precisamos ir.
– Ahm... deixe-o apenas
se despedir – Perrengue pediu e arriscou, girando Éfyn, ao puxá-la para um
canto. – Ônix não tem muitos amigos, além de nós. Aposto que, quando o
conheceu, isso era diferente. Ele tinha alguns amigos, imagino. Um mais chegado
que os outros... talvez.
– Ônix? Amigos? – Éfyn
piscou algumas vezes, sem entender onde Perrengue queria chegar. – Acho que eu
fui sua única amiga, se cheguei a tanto, além da outra que era, na verdade, o
amor da vida dele. Como eu poderia competir com uma princesa? Por isso, nunca
nutri esperanças; além de uma noite. Já que não era seu amor, já me contentei
em ser, naquela época, a única amiga que ele tinha.
– Certeza? Ninguém em que
ele confiava? – o marujo enrugou a testa, olhando para o capitão, que ainda
conversava com o menino.
– Não que eu saiba e
creio que saberia – a mulher estranhou, mas, acabou dizendo: – Acredite, Ônix
nunca teve tantos amigos quanto tem hoje. Mas esse novo amiguinho precisa ir,
para ele seguir em frente.
Éfyn não esperou ouvir
mais nada de Perrengue e se aproximou novamente do filho.
Ônix estalou os dedos e
Perrengue pegou para ele um embrulho que estava ali perto.
– Um presente de
despedida – Pedra-Negra falou.
– O que é? – o menino
perguntou, ansioso
– Uma roupa.
– Roupa? Eu pareço
precisar de roupa?! – O menino dramatizou. Esperava brinquedos e isso, para
ele, significava armas. – Preciso é de espadas, nunchakus, punhais...
– Esta roupa é um escudo
– Ônix falou, bem sério. Era importante o menino escutar com atenção. – Esta
foi a primeira roupa pirata que fiz para mim. Acabei nunca usando. No fim
escolhi o nome Ônix Pedra-negra e, como verá, esta aí é toda vermelha. Não ia
combinar muito. Mas é em couro bem trabalhado e é bem funcional.
– E protege como um
escudo? – o menino estava mais interessado.
– Sim – Ônix confirmou. –
Principalmente a quem você ama. A bandana desce sobre os olhos, onde há uma
espécie de máscara. Você verá seus oponentes, mas eles não verão você. Verão o
vermelho da verdadeira justiça. E, sem saberem quem você é, por baixo da
máscara, não saberão quem ameaçar para te ferir.
– Ele é só uma criança –
Éfyn falou. – Gostaria muito que ele não se tornasse um aventureiro.
– A vida é sempre uma
aventura quando se é inteligente o suficiente para contestar o que está errado
– Ônix falou. A mulher o mirou com fúria e o pirata completou, de imediato – E
só vai servir nele quando crescer o suficiente para fazer as próprias
escolhas.
– Não sei se gosto de vermelho – o menino
comentou.
– Tenho um grande plano –
Pedra-Negra falou ao menino. – Se eu falhar, o mundo se tornará um mar de
sangue e, com esta roupa, você estará muito bem camuflado. Assim poderá fazer
alguma diferença. Espero que este dia nunca chegue e que você possa escolher a
própria roupa.
– Temos de ir – Éfyn
falou.
O menino olhou da mãe para
o pirata ajoelhado diante dele e perguntou:
– Vou vê-lo novamente?
– Claro que vai! Em seus
sonhos...
Ônix abraçou o menino e
ele foi levado pela mãe.
O capitão aproximou-se da
rampa por onde Éfyn e Dinho desceram. Perrengue parou um pouco atrás dele. Logo
a criança e sua mãe estavam no píer e Ônix murmurou, entristecido:
– E eu o verei nos
meus...
– Não acha que poderia
manter contato? – Perrengue perguntou, parando ao seu lado. Ambos assistiam a
mulher e a criança se afastando aos poucos. O menino gesticulando,
demasiadamente, enquanto provavelmente resumia tudo o que vivenciou naqueles
dias.
– Este triste desfecho
era inevitável – Ônix respondeu.
– Você pode saber muito
sobre o passado esquecido; e não me interessa como sabe, mas, não sabe como
tudo deve ser, neste tempo. Não pode saber sobre o seu futuro. Ou pode?
– Sei o que preciso
fazer. E isso não é saber sobre meu futuro? – Ônix argumentou.
– Espero, neste caso, que
saiba mais sobre seu futuro do que sobre seu passado.
– O que quer dizer com isso?
– o pirata se deu ao trabalho de perguntar.
– Ou não se lembra do seu
passado, o que acho pouco provável, ou está mentindo para mim e para si mesmo.
Parece não ter havido um amigo que se passou por você na tenda escura, no dia
em que o menino foi concebido.
– Falou com Éfyn.
– Sim.
– Não deve acreditar em
tudo o que escuta – Ônix alertou.
– Está se referindo ao
que ela disse ou ao que você me disse, capitão?
– As duas coisas. Mas,
sobre este assunto, especificamente, saiba que Éfyn não sabe tudo sobre mim, como
acredita saber. Você pode acreditar nisso ou não. Um coisa é certa... – Ônix
falou, virando-se para o marujo. Perrengue esperou, com atenção, a pausa
dramática do capitão, até o superior dizer, displicentemente: – Não me importo.
Limpem esta bagunça! Vamos voltar à ação!
– Pôxa, eu já estava
cochilando aqui – um marujo resmungou, lá atrás, ainda envolto em panos pretos,
deitado no convés.
– Pois é, o calorzinho
bom dessas tochas é acolhedor – outro concordou, levantando-se devagar,
enquanto se desvencilhava dos tecidos negros para voltar a ser um marujo.
Perrengue se afastou do
capitão, sacudindo a cabeça, em desistência forçada, para recolher espadas
jogadas ao chão. Ônix voltou a olhar a mulher e o menino desaparecendo ao
longe. Bons momentos de alegria se foram. Os próximos dias seriam um tanto mais
tristes. Alternância. Assim era a vida. E Pedra-Negra havia escolhido uma na
qual esta dança se tornava cada vez mais intensa.
***
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